Vitorioso, Obama espera aumento do terrorismo, diz professor

Passada a névoa inicial da morte de Osama Bin Laden, os Estados Unidos esperam um recrudescimento da atividade terrorista, analisa o professor Marcial Garcia Suarez, Coordenador do Grupo de Pesquisas em Terrorismo e Segurança Internacional da Universidade Federal Fluminense. Para ele, a morte de Bin Laden, embora simbólica, chega a ser secundária num contexto geral do fenômeno do terrorismo e não deve significar um fim dos ataques. Ao mesmo tempo, defende, o desfecho da caçada pelo saudita - aplaudida pelos governos de todo mundo - deve acrescentar legitimidade ao papel dos Estados Unidos em um nível global.

Terra: O que suscita a morte de Bin Laden, tal como ela ocorreu?

Marcial Garcia Suarez: Diversas questões emergem sobre a ação estadunidense, dentre algumas podemos pensar: como Bin Laden poderia estar tão próximo e não ser notado? Como pensar que um líder insurgente, experiente nas táticas de guerrilha, que enfrentou forças soviéticas durante a década de 1980 e por dez anos foi capaz de se desviar dos serviços de inteligência estadunidenses e de seus aliados possa ter cometido o erro de ser indiscreto?

Qual o impacto deste acontecimento?

Em uma análise que possa apontar caminhos da política estadunidense neste contexto, devemos tentar olhar além da névoa que o evento da morte de Bin Laden levanta. O desaparecimento físico da figura de Bin Laden chega a ser secundário. A questão do terrorismo global não se vincula à figura de Bin Laden, e sim a um cálculo estratégico simples, comum em conflitos assimétricos, nos quais o ator com menor capacidade de enfretamento direto contra seu inimigo irá buscar ações que promovam a melhor relação de custo e benefício. Nesse caso o terrorismo é exemplar.

A política externa americana mudará daqui para frente?

O próprio governo de Obama tratou de desvincular a figura de Bin Laden do fenômeno político do terrorismo global, ao indicar que as ações de combate e a presença militar estadunidense continuariam, posto que a morte de Bin Laden não desmotiva a presença de grupos terrorista, ao contrário: o que o governo de Obama espera é um acirramento e potenciais novos ataques terroristas.

Qual o papel de Obama no desfecho da caçada a Bin Laden?

Pode-se considerar que governo de Obama é o ator vitorioso no episódio. O presidente estadunidense abandona um processo declinante de popularidade e abre uma nova perspectiva em termos de política interna diante do horizonte do processo de reeleição. Na medida em que novos ataques terroristas ocorram, seja em solo estadunidense ou não, a legitimidade das ações estratégicas em nível global por parte dos EUA adquire novo ânimo, se considerarmos que a relação de legitimidade de ações militares se relaciona de alguma maneira com a identificação de um inimigo existencial por parte dos EUA, especificamente, o terrorismo islâmico.

Bin Laden falhou?

Parece pouco plausível que um ator político experiente como Bin Laden pudesse cometer um descuido em sua segurança, a menos que contasse com a conivência do governo paquistanês. Logo, a versão até o momento apresentada - principalmente pelo governo do EUA - deve ser analisada a partir de uma perspectiva mais específica para que se possa compreender alguns fatores determinantes, entre os quais o processo de reeleição estadunidense e a busca por uma maior legitimação da presença dos EUA, tanto ao nível da política doméstica estadunidense como em termos da política externa dos EUA.

Osama bin Laden é morto no Paquistão

No final da noite de 1º de maio (madrugada do dia 2 no Brasil), o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou a morte do terrorista Osama bin Laden. "A justiça foi feita", afirmou Obama num discurso histórico representando o ápice da chamada "guerra ao terror", iniciada em 2001 pelo seu predecessor, George W. Bush. Osama foi encontrado e morto em uma mansão na cidade paquistanesa de Abbottabad, próxima à capital Islamabad, após meses de investigação secreta dos Estados Unidos .

A morte de Bin Laden - o filho de uma milionária família que acabou por se tornar o principal ícone do terrorismo contemporâneo -, foi recebida com enorme entusiasmo nos Estados Unidos e massivamente saudada pelacomunidade internacional. Enquanto a secretária de Estado dos EUA afirmava que a batalha contra o terrorismo continua, o alerta disseminado em aeroportos horas depois da notícia simboliza a incerteza do impacto efetivo da morte de Bin Laden no presente e no futuro.