El Comercio, jornal histórico do Equador, teme censura do governo

Os jornalistas do "El Comercio", veículo importante da imprensa equatoriana, param de escrever, para ouvir um discurso de sua diretora, Guadalupe Mantilla, em defesa da liberdade de expressão que, alguns acreditam, está sendo ameaçada pelo referendo a ser realizado neste sábado no país.

Na redação deste jornal, fundado por seu avô, há 105 anos, Mantilla exibiu uma camiseta branca com os dizeres: "liberdade" e "mais respeito", usada num ato, no dia 3 de maio, que reuniu muitos profissionais de vários jornais, por ocasião do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Ela destacou a necessidade de independência da imprensa para que o Equador não se torne "um país obscuro".

Seu chamado tem uma motivação: o referendo promovido pelo presidente Rafael Correa. Ele propõe uma lei que cria um orgão para regular o conteúdo dos meios de comunicação e definir sanções aos jornalistas e meios.

O projeto também proíbe que jornais e bancos invistam em outros setores.

Mantilla, junto de outros grupos de jornais e comerciais, teme qua a lei proposta pelo governo restrinja a liberdade de imprensa. Alguns grupos a consideram um "sistema de censura previa".

"A lei pode parecer muito boa, mas é vaga e dá margens a interpretações, e é aí que podemos sofrer ataques, eles podem interpretar do seu modo", diz Mantilla à AFP.

O projeto original, depois modificado, determinava uma importante participação do poder Executivo sobre um Conselho de regulação, multas pesadas e controles para a compra de matérias-primas, de acordo com Mantilla.

O presidente do Equador, Rafael Correa, tentará legitimar-se em um referendo sobre emendas à justiça neste sábado, numa busca de contornar o fantasma da instabilidade política que ronda o país desde a rebelião policial que gerou a crise de 30 de setembro de 2010.

Correa, que já venceu cinco eleiçoes seguidas, desde que assumiu o poder em 2007, propôs o referendo dois meses depois do levante policial por reajustes salariais, que deixou dez pessoas mortas. Segundo o presidente, a revolta teria sido instigada por opositores para tentar derrubá-lo e até assassiná-lo.

A oposição nega essas denúncias e tem promovido o "Não" no referendo através de várias frentes, alegando que o presidente socialista busca controlar o poder judiciário e restringir direitos e liberdades ao impor limites aos bancos de investimento e aos meios de comunicação, assim como restrições à imprensa.

A gestão de Correa tem a aprovação de cerca de 65% dos equatorianos, diante de cerca de 32% de reprovação, segundo uma pesquisa da empresa Santiago Pérez, divulgada no último dia 16 de abril.