Raúl Castro, o general no labirinto das reformas

O presidente Raúl Castro, que consolidou seu posto no topo da hierarquia do Partido Comunista (PCC) nesta terça-feira em substituição ao irmão, Fidel, é um general de quase 80 anos preso entre o tempo de vida que lhe resta para introduzir reformas em Cuba e a necessidade de fazê-lo com parcimônia e pouca pressa.

Sem o carisma do irmão mais velho, de 84 anos, que apeou do poder devido aos persistentes problemas de saúde em 2006, Raúl assume agora como primeiro secretário do PCC, partido único da ilha, cargo que na prática já vinha desempenhando nos últimos cinco anos.

Fidel, por sua vez, afastou-se oficialmente perante a burocracia partidária de seu mais alto cargo.

Desde que assumiu o comando, o general de olhos rasgados - responsáveis por seu apelido, "o chinês" - tenta recuperar a dinamitada economia cubana com um programa de reformas que acaba de aprovar no VI Congresso do PCC, justificado como uma "atualização" do modelo cubano.

Com voz firme e autoritária, um contraste com seu caráter íntimo familiar e alegre, Raúl Castro já bateu na mesa para pedir aos cubanos que "apertem os cintos", "trabalhem" e "acabem com o desperdício".

O "general-presidente", que alterna entre o uniforme verde-oliva, a tradicional guayabera e o terno, não é muito afeito a improvisações e lê seus discursos com rigor.

Em maio do ano passado, Raúl iniciou um diálogo inédito com a Igreja católica, que levou à libertação de mais de cem presos políticos. No mês passado, convidou o ex-presidente americano Jimmy Carter para uma visita à ilha, e reiterou ao se encontrar com ele sua disposição em dialogar com Washington.

Ministro das Forças Armadas desde o triunfo da revolução, em 1959, até chegar formalmente à presidência, em fevereiro de 2008, estabeleceu um governo muito assistido por generais e coronéis, ao estilo de uma cadeia de comando militar.

"Simplesmente exigirei que se cumpra o que eu ordenei ou orientei por acordo dos organismos superiores", disse, ao discursar no Congresso do PCC.

Renovou dezenas de ministros, dirigentes do PCC, e como parte de sua campanha contra a corrupção, pela qual já processou ou afastou ministros e antigos amigos, criou a Controladoria Geral.

A vida o testou com um grande drama pessoal entre 2006 e 2007: enquanto assumia o governo e tentava organizá-lo, seu irmão Fidel se debatia entre a vida e a morte, enquanto sua mulher, Vilma Espín, companheira de guerrilha, falecia após uma longa e agonizante doença.

Acostumados a não saberem quem são a esposa e os filhos de Fidel, que os governou durante quase meio século, os cubanos ainda se surpreendem ao ouvir Raúl falar sobre as conversas que tem com os netos.

Perplexos, souberam que o atlético guarda-costas que o segue sem perdê-lo de vista um só minuto é um de seus oito netos, e que um de seus quatro filhos é a sexóloga Mariela, que declarou guerra à homofobia em Cuba com o apoio do pai e do PCC.

Raúl, que goza de aparente boa saúde embora acuse já um certo peso da idade, tem além de Mariela mais duas filhas, Débora e Nilsa. Seu único filho, Alejandro, é coronel do ministério do Interior e sua mão direita no governo.

Nascido em 3 de junho de 1931 em Birán, no sudeste da ilha, filho de Angel Castro e Lina Ruz, Raúl é o quarto de sete irmãos - e, até julho de 2006, passou a vida à sombra de Fidel.

Como será o resto de sua vida, exposto à luz, ainda é uma incógnita, mas fácil certamente não será.