Governo líbio reafirma que está aberto a reformas, mas sem que Kadafi deixe o poder

TRÍPOLI - O governo da Líbia reafirmou nesta terça-feira que está pronto para negociar reformas, mas apenas se o ditador Muamar Kadafi não for obrigado a deixar o poder. Mussa Ibahim, porta-voz do governo líbio, disse à imprensa em Trípoli que tudo é negociável, com exceção da posição de Kadafi, alegando que o ditador é uma figura de união do país, ao qual governa há quatro décadas. "Que tipo de sistema político será implantado no país? Isso é negociável, podemos falar sobre isso", afirmou Ibrahim. "Podemos fazer qualquer coisa, eleições, referendos".

Mas o futuro de Kadafi, destacou o porta-voz, é indiscutível. Horas antes, os rebeldes teriam rejeitado uma oferta de acordo de paz segundo o qual o filho do ditador assumiria a liderança da Líbia.

Para Ibrahim, Kadafi é "a válvula de segurança" da unidade entre as tribos e povos do país. "Acreditamos que é muito importante iniciar uma transição para um modelo transparente e democrático", estimou.

Mantendo a atitude desafiadora, Kadafi apareceu na segunda-feira saudando alguns de seus defensores em sua residência de Bab el-Aziziya, em Trípoli, que fora bombardeada por aviões da coalizão internacional dois dias antes. Foi a primeira aparição pública do ditador desde 22 de março.

Saif al-Islam, que mesmo antes da rebelião popular contra o regime de seu pai já era visto como seu sucessor natural, também apareceu rapidamente em um hotel de Trípoli para conceder uma entrevista à rede BBC.

O filho de Kadafi disse que o ex-ministro das Relações Exteriores, Mussa Kussa, que desertou e fugiu para o Ocidente na semana passada, é apenas "um homem velho e doente" que sucumbiu às pressões psicológicas da guerra.

Saif, que não era visto desde o início dos ataques da coalizão, em 19 de março, indicou que Kussa recebeu permissão para deixar o país para buscar tratamento médico. "Sobre Mussa Kussa, ele disse: 'estou em uma lista de pessoas proibidas de viajar, mas estou doente e preciso ir a cada três meses ao hospital Cromwell, em Londres, se eu puder obter a permissão. Quero ir para lá'. Então (...) deixamos que ele fosse a Djerba, na Tunísia, então não há nada contra isto", relatou.

"Estamos sendo bombardeados há duas semanas, imagine a pressão psicológica, e se você está doente e velho, você renuncia. É uma guerra", afirmou Saif.

Indagado sobre eventuais informações que o ex-ministro possa vir a divulgar para as potências ocidentais, Saif disse apenas: "Ele está doente, doente e velho; claro que virá com uma série de histórias engraçadas".

Sobre algum segredo que Kussa decida revelar, Saif perguntou: "Que tipo de segredo? Os britânicos e os americanos sabem sobre Lockerbie, não há mais segredos".

O governo americano suspendeu as sanções que vigoravam contra Kussa depois de sua deserção para o Reino Unido, decisão anunciada para enfraquecer o círculo interno de Kadafi.

As forças de Kadafi foram alvo de um bombardeio da Otan perto de Brega depois de lançarem uma intensiva barreira de artilharia contra os rebeldes, que fugiram. Duas caminhonetes foram destruídas no ataque, mas os soldados que as ocupavam escaparam ilesos.

Poucos minutos antes, famílias inteiras fugiam da cidade em carros, afirmando ser impossível continuar em Brega devido aos violentos combates. "Brega está praticamente deserta", disse à AFP Sami Ali, morador da cidade. "Há apenas alguns poucos homens e seus filhos, que ficaram para guardar suas casas".

Apesar disso, um navio-tanque é esperado no porto de Tobruk nesta terça-feira, onde é esperado para levar o primeiro lote de petróleo produzido pela região líbia tomada pelos rebeldes em 18 dias, segundo uma porta-voz da Lloyd's List. "Há um navio-tanque programado para chegar ainda hoje (terça-feira) no terminal petrolífero perto de Tobruk, de acordo com os dados de inteligência da Lloyd", informou Michelle Wiese Bockmann, editora da Lloyd's List, especializada em dados e novidades sobre navegação.