Para EUA, Líbia deve escolher entre democracia e guerra civil

WASHINGTON, 1 Mar 2011 (AFP) -Foi através da secretária de Estado Hillary Clinton, em meio a crescentes pressões econômicas e militares, que os Estados Unidos advertiram a Líbia nesta terça-feira: neste momento de crise, o país deve decidir se o futuro seguirá o caminho da democracia ou cairá no abismo da guerra civil.

"Nos próximos anos, a Líbia poderá converter-se numa democracia pacífica ou poderá enfrentar uma longa guerra civil", declarou a chefe da diplomacia americana ao Comitê de Relações Exteriores da Câmara de Representantes.

"Há muito em jogo", afirmou.

Ela falou sobre como a diplomacia americana e a USAID - agência americana de ajuda ao desenvolvimento internacional - estão promovendo os interesses do país ao buscar maneiras de acabar com a violência na Líbia e auxiliar os cidadãos.

"Este é um exemplo que está acontecendo agora de como usamos os trunfos combinados (...) da diplomacia, do desenvolvimento e da defesa para proteger a segurança e os interesses americanos, promovendo os nossos valores", declarou.

"Esta é a maneira mais eficiente - e também do ponto de vista financeiro - de sustentar e ampliar nossa segurança em todo o mundo. E isto só é possível com um orçamento que apoie todas as ferramentas de nosso arsenal de segurança nacional", argumentou Hillary.

Referindo-se às rebeliões populares que já derrubaram dois regimes autocráticos no Oriente Médio nos últimos dois meses, a secretária de Estado americana afirmou que os Estados Unidos "estão trabalhando para abrir sistemas políticos, economias e sociedades (...), e para apoiar trasições democráticas no Egito e na Tunísia que sejam pacíficas, ordenadas e irreversíveis".

Entretanto, as principais autoridades militares dos Estados Unidos admitiram que a imposição de uma área de exclusão aérea sobre a Líbia, como foi aventado mais cedo, seria uma tarefa "extraordinariamente" complexa - principalmente porque, para que haja qualquer intervenção militar, é necessário um consenso entre os aliados da Otan, o que ainda não foi alcançado nesta terça-feira.

"Não há unanimidade na Otan para o uso das forças armadas", afirmou o secretário americano de Defesa, Robert Gates, em uma coletiva de imprensa junto com o chefe do Estado-Maior, almirante Michael Mullen.

"E os tipos de opções que têm sido discutidas na imprensa e em todos os lugares também têm suas consequências e efeitos de segunda e terceira ordens, então precisam ser consideradas com muito cuidado", disse.

O ditador Muamar Kadhafi, há mais de quatro décadas no poder, tem combatido com virulência a rebelião popular pró-democracia, que exige sua renúncia e já tomou o controle de várias cidades do país.

Kadhafi não hesitou em mobilizar suas forças de segurança contra os manifestantes, provocando um verdadeiro massacre que já contabiliza pelo menos 1.000 mortos e gerou uma crise humanitária, com milhares de pessoas tentando fugir do país pelas fronteiras com o Egito e a Tunísia.

Hillary Clinton também defendeu nesta terça-feira uma investigação para apurar a possível participação do ditador líbio no atentado aéreo de Lockerbie, que matou 270 pessoas em 1988.

Hillary disse ao Congresso americano que formalizaria, através de uma carta, um pedido ao governo para "reunir provas e abrir uma ação contra Kadhafi e todos aqueles com quem ele pode ter conspirado" para executar o ataque.

A questão, explicou a chefe da diplomacia americana, tornou-se premente "porque houve declarações nos últimos dias feitas por pessoas que hoje são ex-membros do governo líbio apontando Kadhafi, deixando claro que a ordem (para o atentado) veio do topo".

"Acho que, de fato, precisamos agir rapidamente", destacou, falando para a Comissão de Relações Exteriores do Congresso.

O jornal sueco Expressen informou que o ex-ministro da Justiça líbio Mustapha Abdeljalil, que passou à oposição depois de se voltar contra o regime, teria dito ter "provas de que Kadhafi deu a ordem para Lockerbie".

A maioria das vítimas do voo 103 da Pan Am, que explodiu sobre a cidade escocesa de Lockerbie, era americana.

Em 2001, o líbio Abdelbaset Ali Mohmet al-Megrahi foi condenado por ter orquestrado o ataque, mas acabou libertado em 2009 por sofrer de um câncer terminal.