Kadafi convoca o povo líbio para a guerra

TRÍPOLI - O líder líbio Muamar Kadafi discursou para uma multidão reunida nesta sexta-feira na Praça Verde de Trípoli e convocou seus seguidores e o povo líbio para se preparar para defender a Líbia, segundo imagens divulgadas pela televisão estatal.

"O povo líbio ama Kadafi", proclamou o dirigente à multidão.

O ditador afirmou ainda que "todos os arsenais serão abertos para armar o povo", no 11º dia de insurreição contra seu governo.

"Vamos lutar e vamos derrotá-los!, acrescentou.

Cinco mortos em confronto

As forças leais ao dirigente líbio Muamar Kadafi dispararam contra os manifestantes que se aglomeraram em vários bairros de Trípoli depois da oração de sexta-feira, informaram várias testemunhas entrevistadas por telefone pela agência AFP. Cinco pessoas teriam morrido.

"As forças de ordem dispararam contra os manifestantes sem fazer distinção. Há mortos nas ruas de Sug Al Joma", indicou um habitante desse bairro.

Outras testemunhas de bairros do leste da capital, como Ben Ashur e Fashlum, também registraram disparos contra pessoas nas ruas.

Kadafi anuncia aumento de salários e ajuda às famílias líbias

A televisão estatal líbia informou nesta sexta-feira que o governo do presidente Muammar Kadafi autorizou a concessão de aumentos de salários e subsídios, além da distribuição de alimentos e outros auxílios.

Segundo a TV, cada família vai receber 500 dinares líbios (US$ 400) como ajuda para cobrir custos com alimentos. Os salários de algumas categorias de funcionários públicos terão aumento de 150%.

A decisão é uma tentativa de aplacar a revolta popular que toma conta do país. As cidades do leste já estão sob controle de opositores armados. Kadafi ordenou que as tropas atirem contra os manifestantes, para evitar que o oeste do país também caia nas mãos da população rebelada.

Rede de abastecimento de alimentos está à beira do colapso na Líbia

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU advertiu nesta sexta-feira que a rede de abastecimento de alimentos na Líbia corre o risco de entrar em colapso, ao mesmo tempo em que as organizações humanitárias temem que muitas pessoas não consigam abandonar o país.

"A Líbia importa praticamente todos os gêneros alimentícios e a rede de abastecimento está à beira do colapso", afirmou a porta-voz do PMA, Emilia Casella.

A porta-voz informou que as importações de alimentos não chegam mais aos portos líbios e que a violência dificulta a distribuição.

Paralelamente, uma fonte do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) informou que muitas pessoas que desejam abandonar a Líbia estão presas e não conseguem deixar o país.

"Estamos preocupados com o fato de que muitas pessoas que desejam fugir se encontram retidas", declarou Melissa Fleming.

Repressão aumenta e ONU teme milhares de mortos e feridos

A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, denunciou nesta sexta-feira um crescimento "alarmante" da repressão à rebelião que ameaça o regime de Muamar Kadafi, que pode ter deixado "milhares de mortos e feridos".

"Em aberta e contínua violação das leis internacionais, a repressão das manifestações pacíficas na Líbia se intensifica de forma alarmante, com notícias de massacres, detenções arbitrárias, detenções e torturas de manifestantes", declarou Pillay.

"De acordo com algumas fontes, podem ser milhares de mortos ou feridos", acrescentou, no início de uma sessão especial do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas que vai examinar a situação na Líbia.

Os 47 membros do Conselho se pronunciarão ao fim da reunião sobre um projeto de resolução que pede a exclusão da Líbia deste organismo da ONU, do qual o país faz parte desde maio de 2010.

Opositores tomam controle da embaixada da Líbia em Paris

Um grupo de opositores líbios, que se anunciam como "filhos da revolução", tomou o controle da embaixada da Líbia em Paris. "Assumimos o controle da embaixada", declarou uma fonte do movimento, que pediu anonimato, enquanto um cordão policial impedia a entrada no edifício e em particular a entrega de alimentos aos jovens manifestantes.

Os opositores, que chegariam a 30 pessoas, ocupam a embaixada desde a noite de quinta-feira. Eles expulsaram os funcionários do local.

O grupo ameaça cometer suicídio coletivo no caso de intervenção da polícia. Os manifestantes içaram no local a antiga bandeira líbia, anterior à chegada ao poder de Muamar Kadafi em 1969.

"O embaixador perdeu a legitimidade porque se nega a dar apoio ao povo líbio", afirmou a mesma fonte, antes de acrescentar que o objetivo é "libertar" todo o território líbio, incluindo as embaixadas no exterior.

A repressão ordenada pelo ditador Muamar Kadafi aos protestos contra seu regime deixaram 300 mortos, segundo o balanço oficial, mas a Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH) registrou pelo menos 640 mortes. Outros balanços não confirmados mencionam mais de 1.000 mortos.