Sobre a crise, empresário dos EUA admite: fizemos porcaria

 

Cruise, não o Tom, o Christopher, é um cidadão que treinou 10 mil cidadãos que faziam empréstimos para outros cidadãos comprarem suas casas nos Estados Unidos. Essa ciranda imobiliária, como se sabe, levou à quebra dos EUA e, por contaminação bancária, boa parte do mundo. Para entender o tamanho da irresponsabilidade, da loucura, vejamos o que disse Cruise à Comissão do Congresso norte-americano, que investigou as vísceras da quebradeira:

- Eu sabia que os riscos estavam sendo desprezados. Sabia que poderíamos estar fazendo uma porcaria. Mas no final, isso foi como o jogo das cadeiras. O volume da música poderia ser diminuído, mas nós não seríamos feridos...

- Não se teve nenhum incentivo para preocupação com a qualidade do empréstimo; se era apropriado para o mutuário, ou se foi realizado. Na verdade se seguiu um caminho sendo encorajado a não se preocupar com essas questões macro.

Cruise era um educador corporativo do Estado de Maryland e treinava "oficiais de empréstimo" para as empresas em expansão com as hipotecas nos Estados Unidos.

Em depoimento à Comissão de Inquérito da Crise Financeira, no Congresso norte-americano, ele conta que durante um ano percorreu o país treinando cerca de 10 mil "oficiais de empréstimo" em auditórios e salas de aula.

"Eu fui um treinador de vendas e marketing para ajudar as pessoas a saberem como vender esses produtos, em alguns casos, francamente, para simples e insuspeitos mutuários", disse ele.

Mutuários, como sabemos, são pessoas que adquirem imóveis por empréstimo, mas no caso dos EUA são também otários que caíram no conto do almoço grátis. O resultado, apenas na América do Norte, foi de 8,3 milhões de desempregados no rastro da bancarrota financeira que ainda contamina países inteiros mundo afora.

A porção do relatório do Congresso intitulada "Estava bem diante de nossos olhos" (Before our very eyes) soa triste, embora seja deliciosamente exata. E isso fica claro em outra confissão do Cruise - o Christopher, não o Tom - aos seis democratas e quatro republicanos que constituíram a comissão de investigação da crise. Notem o naipe dos vendedores de crise treinados por Cruise:

- A maioria dos novos contratados era de jovens, sem experiência com hipoteca, recém-saídos da escola e com trabalhos anteriores... em lanchonetes, por exemplo.

Todos esses detalhes foram dados pelo próprio Cruise à Comissão. Ele disse, inclusive, que entre seus clientes estavam muitas das maiores credoras do país, como Ameriquest e Ditech.

Segundo consta no mesmo capítulo "Estava bem diante de nossos olhos", até mesmo um novo termo foi cunhado em Wall Street enquanto todos, inclusive e especialmente Wall Street, sabiam da crise que estavam gerando. O termo é IBGYBG, "I'll be gone, you'll be gone".

A tradução literal seria algo como "Eu vou embora, você terá ido". Já em bandidês é possível explicar a coisa assim:

- Você e eu sabemos que vai dar errado mais adiante, mas, até lá, eu terei levado uma bela grana com as comissões e você já terá sua casa.

Deu no que deu.

Todo esse cenário acrescido do termo wallstreeteano, o IBGYBG, leva à máxima atribuída ao Rei da França Luis VX, "Après moi, le déluge" - Depois de mim, o dilúvio - frase que antecede a Revolução Francesa e a Era Napoleônica.

O relatório de 662 páginas do Congresso dos EUA aponta "responsáveis" pela formação da bolha hipotecária, pela "leniência" dos órgãos reguladores e descreve o resultado do terremoto financeiro que abalou o mundo.

E, de fato, o que se viveu e ainda se vive é um dilúvio com DNA dos EUA e seu sistema financeiro. Parênteses. Não há como não recordar, também, os arautos e arautas dessa farra, aqueles e aquelas que desde os anos 1990 da "idéia única" venderam, também cá no Brasil, as maravilhas curativas do Deus Mercado, Aquele que jamais deveria ter qualquer espécie de regulação ou controle.

Os efeitos da crise sobre o mercado de trabalho foram os piores registrados. "A economia perdeu 3,6 milhões de empregos em 2008 - a maior queda anual desde que os registros começaram em 1940", detalha o relatório.

"Em dezembro de 2009, os Estados Unidos perderam mais de 4,7 milhões de empregos. Durante o mês de novembro de 2010, a economia tinha recuperado quase 1 milhão de postos de trabalho, estancando apenas uma parte do declínio".

Famílias passaram a perder suas casas quando não tinham como pagar a dívida. Muitos dos empréstimos destinados à habitação entraram "pelo cano" logo depois de assinados os documentos e entregues as chaves.

- Os empréstimos eram colocados em pacotes e vendidos a granel para as seguradoras, incluindo os bancos de investimento como a Merrill Lynch, Bear Stearns e Lehman Brothers, e os comerciais e instituições de poupança, tais como Citibank, Wells Fargo e Washington Mutual - concluíram os congressistas norte-americanos.

Descrevem ainda os congressistas no relatório final sobre a crise e suas origens:

- As hipotecas podiam ser empacotadas, fatiadas, reembaladas, seguradas e vendidas incompreensivelmente como complicados títulos de dívida...

E está quantificada a porção do rombo claramente rastreável:

- A dívida de hipotecas das famílias americanas cresceu nos seis anos (de 2001 a 2007) mais do que ao longo de 200 anos de história dos EUA. O montante das hipotecas por família foi de US $ 91.500 em 2001 para US $ 149.500 em 2007.

Especificamente sobre o endividamento hipotecário, os congressistas detectaram um salto dos US $ 5,3 trilhões em 2001 para US$ 10,5 trilhões em 2007.

Ou seja, o país e a banca que ensinaram ao mundo, e ainda insistem em ensinar como as coisas devem ser também na economia, criaram uma fraude hipotecária de US$ 5 trilhões em cinco anos. Fraude com todos os envolvidos sabendo ser fraude e apenas os néscios achando que daria em Happy End.

Constata a Comissão:

- Pessoas escolheram mal. Algumas pessoas queriam viver acima das suas possibilidades, e, até meados de 2005, quase um quarto de todos os mutuários em todo o país estava tomando empréstimos somente de juros, o que lhes permitia adiar o pagamento do principal.

Alguns mutuários optaram por hipotecas "não-tradicionais", porque essa era a única maneira de obtê-las em áreas como o caríssimo mercado de habitação da Califórnia, por exemplo.

No relatório, está descrito:

- Alguns especuladores viram a chance de abocanhar propriedades de investimento e lançá-las para lucrar - Flórida e Geórgia se tornaram um bom alvo, em particular para os investidores que usaram esses empréstimos para aquisição de imóveis.

- Alguns mutuários foram enganados por vendedores que foram para suas casas e lhes induziram a assinar documentos de empréstimo sobre suas mesas de cozinha (...) Alguns ingenuamente confiaram em corretores de hipotecas, que ganharam mais dinheiro colocando-os em empréstimos arriscados do que nos seguros.

A consequência de lucros obtidos através do altíssimo risco das operações também é discutida pelos congressistas, logo nas primeiras páginas do documento:

- Com estes empréstimos, os compradores foram capazes de aumentar os preços das casas, mesmo que não tivessem renda suficiente para se qualificarem para os empréstimos tradicionais. (...) Alguns destes empréstimos exóticos existiram no passado. Eram utilizados por pessoas de alta renda e segurança financeira como ferramenta de gestão de caixa.

Os contratos recebiam os mais variados nomes e siglas. E estes nomes e siglas dizem tudo sobre o tamanho da bandalheira e do cinismo.

- "Liars loans" - empréstimo mentiroso/de mentira -, "NINJA" (No incomes, no Jobs and no Asset) - sem renda, sem emprego e sem patrimônio, "Low doc" - pouco documento -, "No doc"- nenhum documento -, e assim por diante.

Alguns dos contratos continham desembolsos muito baixos nos primeiros meses, para, só depois, subirem as prestações e, assim, brotarem novos endividamentos dos mutuários.

- Os instrumentos começaram a inundar o amplo mercado em 2004 e 2005 - situam os republicanos e os democratas.

A mudança ocorreu "quase à noite", disse Faith Schwartz, então executivo na credora de subprime Option One e depois diretor executivo da Hope Now, para o Federal Reserve's Consumer Advisory Council (Conselho Consultivo do Consumidor do FED - na tradução literal - e que supostamente serviria para aconselhar o FED sobre a questão da proteção aos consumidores).

- Eu diria que quase todos os credores do país estão nisso, de uma forma ou de outra- confessa Schwartz.

"Para começar, poucas pessoas realmente entenderam os potenciais riscos desses novos empréstimos. Eles eram novos, diferentes, e as consequências eram incertas. Mas, rapidamente, se tornou aparente que o que parecia um novo fundo de riqueza era uma miragem baseada em empréstimos de dinheiro", avaliam os congressistas, que adjetivam as hipotecárias, mais adiante:

- Grande parte da narrativa sobre a crise financeira postula que os sem-escrúpulos e não regulamentados criadores das hipotecas enganaram os mutuários, levando-os a hipotecas ruins - completam os congressistas, pontuando a ausência de dados que ajudassem os compradores na avaliação.

A comissão buscou a origem da crise que se tornou mundial e terminou por imputar responsabilidade aos órgãos reguladores e instituições financeiras:

- Nós concluímos que o governo estava mal preparado para a crise e sua resposta inconsistente foi somada à incerteza e ao pânico nos mercados financeiros;

- Uma combinação de endividamento excessivo com investimentos de risco e falta de transparência colocou o sistema financeiro em rota de colisão com a crise;

- Os dramáticos fracassos da governança corporativa e gestão de risco em muitas instituições financeiras sistemicamente importantes foram a causa principal da crise;

- Havia uma ruptura sistêmica na responsabilidade e na ética.

No dia 20 deste mês, o presidente Barack Obama completou dois anos à frente do cargo. A principal dúvida entre os eleitores ao final da campanha em 2008, mais precisamente após outubro - mês no qual o Lehman Brothers veio abaixo -, era se o próximo mandatário conseguiria conter os efeitos da crise, administrar a nova economia e regulamentá-la para evitar novos colapsos.

O relatório dos congressistas mostra que a construção daquela que foi a maior crise na história dos EUA, desde o crash da bolsa de Nova Iorque em 1929, nasce das permissividades do sistema financeiro desde 1997, passando pelos governos Clinton e Bush. E, para especialistas, pouco ou quase nada foi alterado pela gestão Obama.

Por ora, nem meia dúzia de manés atrás das grades, e La Nave va.