Candidato governista é excluído da corrida presidencial no Haiti

Jude Célestin, candidato do governo à presidência do Haiti, foi excluído do segundo turno, após dois meses de crise, com a decisão nesta quinta-feira do Conselho Eleitoral de inverter os resultados provisórios, manchados pela fraude.

No segundo turno, no dia 20 de março, a ex-primeira-dama Mirlande Manigat e o popular cantor Michel Martelly se enfrentarão, anunciou o Conselho Eleitoral Provisório (CEP). Célestin terminou na terceira posição e fica, portanto, excluído.

O partido do poder, Inité, "aceita os resultados", declarou à AFP o senador Joseph Lambert, coordenador nacional.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) pediu nesta quinta-feira que os resultados anunciados pelo CEP sejam respeitados e anunciou que enviará uma nova equipe de observadores para o segundo turno das eleições, como solicitou o governo haitiano.

"Seguiremos trabalhando para apoiar a preparação e realização do segundo turno a fim de superar os obstáculos do primeiro", garantiu o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, em um comunicado.

Os partidários de Michel Martelly, que segundo os resultados provisórios do primeiro turno tinha ficado na terceira posição, gritavam vitória nos arredores da sede do CEP, após o anúncio dos resultados definitivos.

Os capacetes azuis da missão da ONU (Minustah) e da polícia nacional estavam mobilizados em pontos estratégicos da capital, embora a situação fosse tranquila, constatou um jornalista da AFP.

"Martelly presidente", gritavam partidários do cantor conhecido como "Sweet Micky", tocando as buzinas de seus carros e manifestando sua alegria em um ambiente de festa.

"Manigate e Martelly no segundo turno, e depois a paz", gritava Héctor, um jovem haitiano que vive em um campo para desabrigados desde o terremoto de janeiro de 2010, localizado muito perto da sede do CEP.

O Haiti estava afundado em uma grave crise política desde a publicação, no início de dezembro, dos resultados provisórios do primeiro turno, realizado em 28 de novembro. Os resultados desencadearam atos violentos de simpatizantes de Martelly, que acusavam Célestin de fraude.

O CEP seguiu finalmente as recomendações de uma equipe de especialistas da OEA e retirou da corrida presidencial Jude Celéstin, o candidato apoiado pelo chefe de Estado René Préval, cujo mandato expira em 7 de fevereiro.

Préval anunciou que continuará no poder além desta data, para permitir a conclusão do processo eleitoral.

Os Estados Unidos haviam ameaçado revisar a ajuda que enviam ao Haiti se as recomendações da OEA não fossem aceitas.

Já o partido no poder havia decidido na semana passada excluir Jude Célestin da eleição, mas ele não havia confirmado sua retirada.

Agora, a dura tarefa de reconstruir o país mais pobre da América após o terremoto de janeiro de 2010 estará nas mãos de Michel Martelly, de 49 anos, ou de Mirlande Manigat, de 70, uma intelectual diplomada na Sorbonne.

Embora o segundo turno das eleições esteja marcado para 20 de março, a comissão eleitoral fixou o dia 16 de abril como data para divulgar o nome do novo presidente do Haiti, que herdará os problemas de reconstrução pelo terremoto, uma epidemia de cólera que matou mais de 4 mil pessoas, além da pobreza e da corrupção espalhada por todo o país caribenho.

Manigat sonha em se tornar a primeira presidente mulher do país, prometendo acabar com a corrupção e reformar o sistema de educação. Casada com o ex-presidente Leslie Manigat, que dirigiu o país por alguns meses em 1988, antes de ser deposto, Mirlande tem alguma experiência política, após atuar brevemente como senadora.

Martelly, por sua vez, um inexperiente em política, garantiu em dezembro à AFP que queria "mudar a cara do Haiti". "As pessoas me veem como a luz no fim do túnel", afirmou.

Desde então, a crise desencadeada pelos resultados provisórios do primeiro turno agravou-se com o surpreendente regresso ao país, no dia 16 de janeiro, do ex-ditador Jean-Claude Duvalier, conhecido como "Baby Doc", após 25 anos de exílio.

Acrescentando ainda mais confusão à situação, o governo haitiano anunciou na segunda-feira estar disposto a fornecer um passaporte ao ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, exilado na África do Sul após ter sido retirado do poder em uma revolta armada em 2004.