Aumenta a preocupação com o patrimônio egípcio

Coquetéis molotov próximos ao Museu egípcio do Cairo, objetos antigos quebrados, saque a um depósito de peças antigas em Qantara e no Sinai: o patrimônio da antiguidade faraônica está em perigo, provocando a preocupação dos arqueólogos e dos grandes museus europeus.

A UNESCO lançou um chamado solene a preservar o patrimônio do Egito, que enfrenta uma revolta popular contra o regime de Hosni Mubarak.

A agência da ONU para a educação, as ciências e a cultura pediu na terça-feira a adoção de "todas as medidas necessárias" para proteger "os tesouros" do país, "no Cairo, em Luxor e em todos os outros sítios arqueológicos culturais ou turísticos".

A diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, está "em contato permanente" com Zahi Hawass, ministro das Antiguidades egípcias, declarou nesta quinta-feira a UNESCO.

Por sua vez, o British Museum "lamentou os roubos e a destruição nos museus e antigos sítios arqueológicos do Egito" nos últimos dias.

"O museu egípcio do Cairo abriga objetos únicos do patrimônio mundial", ressaltou o museu de Londres, que possui uma coleção de antiguidades egípcias de alto nível.

"É cada vez de maior importância que estes objetos insubstituíveis sejam totalmente protegidos para garantir sua segurança e preservação para as gerações futuras", indicou o British Museum.

O Louvre também acompanha a situação com muita atenção, o mesmo acontecendo com a missão francesa de pesquisadores, que realizava escavações em Saqqara (sul do Cairo).

O Museu egípcio do Cairo, que guarda cerca de 150 mil peças, entre elas o incomparável tesouro de Tutankhamon, está especialmente ameaçado pela violência, já que se encontra muito próximo da Praça Tahrir, epicentro dos protestos contra o regime há dez dias.

Na quarta-feira, dois coquetéis molotov caíram no pátio do Museu. Na sexta-feira passada, saqueadores conseguiram entrar, quebrando vitrines e objetos, antes de serem expulsos pelo Exército. Duas múmias do período faraônico foram danificadas.

Em seu blog, Zahi Hawass informou que 70 objetos foram quebrados neste dia, mas que "todos podem ser restaurados e o serão".

Por sua vez, o arqueólogo francês Jean-Pierre Corteggiani declarou nesta quinta-feira à rádio francesa RTL que esta invasão do museu na sexta-feira parecia ser "uma farsa para desacreditar o movimento".

Em Qantara, no Sinai, um depósito onde são conservadas antiguidades foi danificado e seis caixas foram roubadas, indicou Hawass, que tenta tranquilizar a comunidade internacional.

"Peço calma a todos (...) Quero que as pessoas saibam que após nove dias de protestos os monumentos estão seguros. Por quê? Porque o povo egípcio os protege", escreveu Hawass na quarta-feira.

Friederike Seyfried, diretora do museu de Egitologia de Berlim, que abriga em essencial o busto de Nefertiti (reivindicado pelo poder egípcio), ressalta que pensa antes "nos egípcios que tentam conquistar sua liberdade".

"Como egiptóloga, penso, é claro, nas antiguidades, mas isso passa para segundo plano nas condições atuais", acrescentou.