Luto nacional na Tunísia, uma semana após queda de Ben Ali

TÚNIS - Passada uma semana da queda do presidente Zine El Abidine Ben Ali, a Tunísia observa o primeiro dos três dias de luto nacional decretado pelo governo de transição, com orações nas mesquitas em memória das vítimas da repressão aos protestos populares, que deixaram uma centena de mortos segundo cálculos da ONU.

No entanto, não havia sinais visíveis de luto nacional nas ruas da capital tunisiana nesta sexta-feira, dia de oração nas mesquitas, onde pela primeira vez em 23 anos os sermões dos imãs não serão vigiados pela polícia.

No centro de Túnis, muitos policiais ocupavam a avenida Habid Burguiba, como forma de prevenir uma nova manifestação para exigir a renúncia do governo de transição em consequência da presença no gabinete de vários ministros do antigo regime.

O governo de transição decretou na noite de quinta-feira um período de luto nacional de três dias "em memória das vítimas" da "Revolução de Jasmim", reprimida com violência pela polícia de Ben Ali, que simplesmente atirou contra os manifestantes. Esta revolução popular, a primeira do mundo árabe, levou à queda do presidente Ben Ali, depois de 23 anos de um regime autocrático e corrupto. Ben Ali fugiu da Tunísia na última sexta-feira para a Arábia Saudita.

Ao mesmo tempo, a polícia continua cercando a família do ex-presidente e da ex-primeira-dama, Leila Trabelsi. A polícia tunisiana encontrou um verdadeiro arsenal na casa de um cunhado de Ben Ali, segundo imagens exibidas pelo canal de televisão estatal nesta sexta-feira. Fuzis com mira telescópica, pistolas, fuzis de caça e munições foram encontrados enterrados no pátio de uma residência pertencente à família de Leila Trabelsi.

A televisão pública exibiu imagens de policiais na residência, um dia depois do anúncio da prisão de 33 membros da família do ex-presidente.

O Banco Central da Tunísia voltou a negar nesta sexta-feira a denúncia de que Trabelsi tenha roubado 1,5 tonelada de ouro antes de fugir do país. "Há 5,3 toneladas de ouro nos cofres do Banco Central tunisiano (BCT) em Túnis e 1,5 tonelada no Banco da Inglaterra em Londres. Esta quantidade não mudou em 20 anos", afirmou um funcionário do BCT, que pediu o anonimato.

Segundo o canal de televisão TF1 e o jornal francês Le Monde, a esposa do ex-ditador, Leila Ben Ali, teria fugido de Túnis com 1,5 tonelada de ouro em forma de lingotes no valor de 60 milhões de dólares.

Também nesta sexta, o jornalista tunisiano Taukif Ben Brik, ferrenho opositor ao regime de Ben Ali, anunciou que será candidato na eleição presidencial que deve ocorrer dentro de seis meses no país. "Desde agora, sou candidato. Faço campanha desde 2000. E hoje me sinto um candidato favorito, porque sou o único que durante todos estes anos combateu abertamente Ben Ali", declarou.

Ele é o segundo candidato declarado à presidência da Tunísia, junto com o histórico opositor Moncef Marzuki, que vive no exílio na França há muitos anos.