Governo quer romper com herança de Ben Ali, mas protestos prosseguem

Familiares do deposto e fugitivo presidente tunisiano Zine El Abidine Ben Ali foram detidos e um dos ministros que havia conservado o cargo renunciou ao posto no governo de transição, que não consegue acalmar o descontentamento da população, apesar das iniciativas para romper com a herança do homem que governou o país com mão de ferro durante 23 anos.

O novo gabinete, abalado por quatro renúncias desde a formação na segunda-feira, se reuniu pela primeira vez nesta quinta-feira, enquanto 1.000 pessoas protestavam contra a presença de colaboradores de Ben Ali em postos importantes.

"O povo quer que o governo renuncie", gritavam os manifestantes, que exibiam cartazes com frases como "Traidores, já não temos medo", ao mesmo tempo que os militares atiravam para o alto para impedir a escalada do muro na sede do partido de Ben Ali, a Assembleia Constitucional Democrática (RCD).

Para tentar desativar a crise, os oito ministros da RDC anunciaram ter abandonado o partido, que por sua vez informou a dissolução de seu gabinete político.

Pouco depois, Zuheir M''dhafer, que era ministro do Desenvolvimento Administrativo, apresentou o pedido de demissão do cargo, segundo ele para "preservar o interesse supremo da nação e favorecer a transformação democrática do país".

M''dhafer é considerado o idealizador da reforma constitucional aprovada em 2002 por referendo, que permitiu a Ben Ali ter mais dois mandatos consecutivos.

Mais de 100 juízes e advogados defenderam diante dos tribunais a independência da justiça e a renúncia de um magistrado acusado de servir aos interesses de Ben Ali e sua família.

Ben Ali fugiu em 14 de janeiro para a Arábia Saudita, depois de um mês de protestos, nos quais a repressão policial deixou pelo menos 100 mortos, segundo a ONU.

A televisão estatal informou que 33 familiares de Ben Ali foram detidos nos últimos dias, sob a acusação de "crimes contra a Tunísia".

O governo de transição, já com cinco baixas - três sindicalistas, um ex-opositor e agora M''dhaffer - realizou a primeira reunião nesta quinta-feira.

A reunião tinha como temas principais a separação do Estado e da RCD e um projeto de anistia geral.

O presidente interino, Fued Mebazaa, se comprometeu na quarta-feira a "romper com o passado" e a "satisfazer todas as aspirações legítimas da revolta para que aconteça esta revolução da liberdade e da dignidade".

A justiça abriu uma investigação contra Ben Ali, sua esposa Leila Trabelsi e os irmãos, filhos e filhas dos irmãos da ex-primeira-dama, por aquisição ilegal de bens e investimentos ilegais no exterior.

Fontes diplomáticas em Bruxelas informaram que a União Europeia (UE) congelará os bens de Ben Ali e sua família.