Governo Berlusconi pode cair nesta terça-feira na Itália

ROMA - Já faz parte da rotina abrir os jornais ou ligar a televisão e ver um Silvio Berlusconi no ataque por conta de algum movimento no xadrez da sempre turva política italiana. Após dois anos de controle absoluto da vida pública do país, o primeiro-ministro navega há meses em um mar de incertezas com remadores que trabalham pensando apenas no dia de amanhã. Hoje pode ser o último desses dias.

Nas primeiras horas da tarde desta terça-feira, a Câmara de Deputados da Itália votará o "voto de confiança" que pode desenhar o futuro político do Cavaliere e do próprio país pelos próximos anos. Eleito em 2008, Silvio Berlusconi deveria cumprir ainda mais três anos de mandato. Em regimes parlamentaristas como o italiano, no entanto, o voto de confiança pode ser pedido por qualquer um dos partidos que compõem o parlamento. Em caso de minoria, o governo cai.

Pela manhã, a mesma votação acontecerá no Senado, onde Berlusconi tem ampla maioria. Para se manter em pé, o governo precisa contar com o apoio também entre os deputados. Estimativas apontam para vitória de Berlusconi por apenas um voto: 313 "sim" contra 312 "não". A vitória não é garantia de tranquilidade. O número de deputados indecisos (três) pode trazer surpresas. Antes de cada uma das votações, Silvio Berlusconi discursará aos parlamentares.

Mesmo que saia vitorioso da Câmara, é consenso entre a classe política que uma maioria apertada não daria governabilidade a Berlusconi. Seguindo o rito legal, o primeiro-ministro deve se reunir com o presidente da República, Giorgio Napolitano, que decidirá o futuro do país. São dois os cenários possíveis em caso de queda do governo.

Diante de uma derrota no voto de confiança, Berlusconi corre o risco de cair ainda nesta terça-feira, provocando eleições gerais no país, realizadas por volta de março do próximo ano. Neste caso, senadores e deputados também cairiam. Pela lei italiana, no entanto, Giorgio Napolitano pode articular com os campos políticos (situação e oposição) um "governo técnico" capaz de levar o país a dias mais calmos sem a necessidade de ir às urnas. A cautela do presidente da república seria justificada pelo temor da crise de confiança que assola a Europa e arrastou Grécia e Irlanda para o buraco.

A Itália já passou pela experiência de um governo técnico entre abril de 1993 e maio de 1994, quando Carlo Ciampi, então presidente da Banca D'Italia (o Banco Central italiano), assumiu a presidência do Conselho de Ministros após o estouro de Tangentopoli, a estação de caça à corrupção promovida pela Justiça iniciada em 1992. No período - também conhecido como "Mãos Limpas" -, os partidos políticos envolvidos em um sistema de corrupção endêmica desapareceram, dando origem à parte dos existentes hoje.

Por coincidência, um dos nomes mais cotados para assumir o governo em caso de queda de Berlusconi ocupa novamente o cargo de presidente da Banca D'Italia. Pelas últimas pesquisas, Mario Draghi teria apoio de situação e oposição, além de gozar de bom prestígio público.

Outro nome possível seria o do ministro da Economia, Giulio Tremonti. Na conta da Liga Norte, partido que apoia Berlusconi, Tremonti é a opção que mais agrada à oposição entre os nomes próximos ao Cavaliere, já que Mario Draghi é considerado apolítico. Por hora, o ministro vem negando uma possível oferta para assumir a guia do país. As próximas horas serão decisivas.