Negociações delicadas à vista sobre a ajuda da Europa e do FMI à Irlanda

Seis meses após o resgate financeiro da Grécia, o antigo "tigre céltico" irlandês se aproxima por sua vez de um plano de ajuda internacional para injetar liquidez em seus bancos, que o país ainda hesita aceitar e as negociações futuras se mostram delicadas.

Um princípio de decisão para desbloquear empréstimos europeus e do FMI em favor do país foi tomado na terça-feira à noite em Bruxelas durante uma reunião dos ministros das Finanças da zona do euro. Eles se preocupam com as repercussões das dificuldades do setor bancário do país em toda a União Monetária.

Mas esta ajuda não pode ser ativada, se Dublin não a solicitar.

A presidência belga da UE pressionava nesta quarta-feira, considerando inevitável a ajuda financeira tendo em conta a amplitude dos problemas dos bancos irlandeses.

Os bancos irlandeses encontram dificuldade em conseguir dinheiro fresco nos mercados em razão de perdas consecutivas ao estouro da bolha imobiliária. Esta situação criou turbulências em toda a zona do euro.

"Acredito que não conseguiremos sair desta situação sem a ajuda europeia", informou nesta quarta-feira o ministro das Finanças belga Didier Reynders.

"Estou bem convencido de que será muito difícil para o BCE (Banco Central Europeu) ir mais longe neste momento em termos de injeção de liquidez nos bancos de alguns Estados membros e talvez em primeiro lugar a Irlanda", acrescentou mais tarde, no final da reunião com seus homólogos de toda a UE.

O BCE apoia com dificuldade há meses os bancos irlandeses via injeção de liquidez. E um dos membros de sua instância de decisão, o presidente do Banco Nacional de Luxemburgo, Yves Mersch, advertiu que a entidade monetária pode "rever" sua política a respeito dos bancos irlandeses, durante uma entrevista que será publicada na quinta-feira no jornal alemão Die Welt.

O primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, cujo país vai suceder em janeiro à Bélgica na presidência semestral rotativa da UE "encorajou" a Irlanda a pedir ajuda, advertindo contra a política do "esperar para ver".

A Irlanda continua prudente, enquanto uma missão de especialistas da Comissão do BCE e do FMI é aguardada na quinta-feira em Dublin para examinar as modalidades da eventual ajuda e as condições anexas a ela.

O BCE e vários países europeus não se mostraram satisfeitos na noite de terça-feira com o fato de Dublin ainda não ter pedido ajuda imediatamente, a fim de tranquilizar os mercados muito nervosos, segundo um diplomata europeu. Houve "muita decepção", disse.

"O governo tomou o cuidado de não fazer o pedido formalmente, mas nós começamos a discutir para ver quais são as opções", enfatizou nesta quarta-feira, no dia seguinte à reunião, o ministro irlandês das Finanças, Brian Lenihan.

Dublin reluta já que uma intervenção externa corre o risco de ser vivenciada como uma perda humilhante de soberania no país. E ela será acompanhada de condições potencialmente difíceis.

A ajuda à Irlanda também relança o debate delicado sobre as facilidades fiscais concedidas pelo país, que atrai uma infinidade de empresas, mas é comparada a práticas de dumping por alguns países.

A Áustria anunciou nesta quarta-feira que é preciso pedir que a Irlanda aumente seus impostos, atualmente em níveis muito baixos para as empresas, em troca de uma ajuda internacional - oO que Dublin rejeita categoricamente.

A UE também enfatizou que todo suporte financeiro se traduziria em uma "reestruturação" do setor bancário do país.