Relatório da ONU aponta estupro como arma de guerra repugnante

      PARIS - Cada vez mais, as mulheres são vítimas da violência sexual, incluindo o estupro, que é usado como arma de guerra e como meio para resolver conflitos em alguns países, apontou um relatório da ONU publicado nesta quarta-feira. "As mulheres raramente fazem a guerra, mas com muita frequência sofrem as piores consequências destas guerras. A violência sexual, incluindo o estupro, constitui uma arma de guerra repugnante e cada vez mais utilizada", denunciou o Fundo das Nações Unidas para as Populações (UNFPA), em seu informe anual sobre as populações.

O relatório destaca que o "balanço imediato (destas violências) vai muito mais além das vítimas diretas, rompendo famílias impiedosamente e fragmentando as sociedades por gerações".

A publicação do informe coincide com o 10º aniversário, no dia 30 de outubro, da adoção da resolução 1325 do Conselho de Segurança da ONU, que impunha o fim da violência sexual contra mulheres e meninas durante os conflitos armados.

No leste da República Democrática do Congo (RDC), mais de 15.000 mulheres e meninas foram estupradas em 2009, tanto por insurgentes quanto pelas tropas do governo, segundo Roger Meece, representante da ONU no país.

A diretora executiva do UNFPA, Thoraya Ahmed Obaid, indicou que, embora os conflitos e catástrofes agravem as desigualdades entre homens e mulheres, "a reconstrução apresenta uma oportunidade única, de corrigir as desigualdades, de garantir uma proteção jurídica igual ou de criar o espaço necessário para uma mudança positiva".

O relatório 2010 é baseado nos relatos de pessoas afetadas pelos conflitos, além do número de vítimas de um desastre mundial ou de uma catástrofe natural na Bósnia Herzegovina, Haiti, Iraque, Jordânia, Libéria, Uganda e os Territórios palestinos.

Quinze anos depois do fim da guerra na Bósnia, "muitas mulheres estupradas durante o conflito estão traumatizadas até hoje, e temem tanto que a violência que sofreram venha a público que são incapazes de funcionar em sociedade", exemplifica o documento.

"Para as mulheres afetadas pela guerra, uma justiça adiada é pior que uma justiça negada: é um terror permanente", afirmou Margot Wallstrom, representante do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, sobre a violência sexual nos conflitos. "A primeira das prioridades é lutar contra o círculo viciosa da impunidade".