Perto do fim, resgate atrapalha aulas de escola em acampamento

A proximidade com o final do resgate dos 33 mineiros chilenos soterrados desde o dia 5 de agosto na mina San José tem tumultuado o ambiente e atrapalhado as aulas da escola instalada no acampamento Esperança. O professor Raúl Valencia, que dá aulas para as crianças parentes dos mineiros, afirmou que o trabalho da escola tornou-se mais difícil.

A grande quantidade de pessoas que hoje vivem no acampamento, em especial a imprensa, reduziu o espaço ao ar livre que costumava ter, especialmente para as atividades recreativas. "Eu não posso nem brincar com as crianças, porque se eles saem com uma bola dez fotógrafos vêm imediatamente para cima deles", diz ele.

Raúl Valencia trabalha há pouco mais de uma semana na pequena escola criada pelo governo do Chile no acampamento. Ele viajou de San Felipe, cidade na região de Valparaíso, até a mina de San José, quando soube que as famílias estavam acampadas com filhos, netos e sobrinhos dos mineiros presos. Imediatamente pensou que havia crianças sem nada para distraí-las do sentimento de angústia pelo que acontece no lugar.

E seu palpite estava certo. No início as crianças estavam em meio ao clima de incerteza sobre o destino dos mineiros e, em seguida no clima de ansiedade para saber quando seriam resgatados.Pior, eles se arriscavam a perder o ano letivo porque suas famílias não tiveram escolha a não ser tirá-los da escola e ir com eles para o deserto.

O professor Valencia, junto a Margarita Guzmán, outra professora da "Sala San José", se esforça para completar o plano de estudos das crianças trabalhando durante todo o dia das 9h às 17h. A única interrupção é para o almoço no clube do acampamento, porque a ideia é "recuperar as aulas e, para isso você tem que fazer bom uso do tempo", diz ele.

A respeito do estado de humor das famílias e das crianças, o professor revela contrastes. Os adultos "estão muito ansiosos e até mesmo dão datas para o resgate; a sensação de que algo vai acontecer em breve é reforçada pela presença de jornalistas", afirma o professor.

As crianças, entretanto, "estão relaxadas, e não ansiosas. Mesmo na sala de aula, nós perguntamos e eles dizem que não querem sair do acampamento, porque para eles é como um jogo." "De salário eu nunca mais soube".

A experiência de Valencia no acampamento foi doce e também amarga. Foi criticado por algumas famílias que a escola tenha sido instalada após um mês da tragédia, e ainda lhe dói terem duvidado de sua aptidão e capacidade profissional para assumir a sala de aula.

Apesar de ter chegado como "voluntário" após a instalação oficial da sala de aula algumas autoridades falaram de um salário, mas sua situação permanece inalterado até hoje. "Eu ainda estou como voluntário, me falaram de contrato, que vão me pagar, mas até agora eu não assinei nenhum papel nem sentar em uma mesa para me mostrarem o que eu oferecem. Durante a cerimônia de abertura algumas pessoas me disseram 'nós precisamos conversar', mas nada aconteceu. Bati uma foto, ganhei cumprimentos e nunca mais ouvi falar de ninguém", diz o professor.

Valencia afirma que, após o resgate dos mineiros e o fim da sala "San José", vai voltar para sua cidade. "Eu quero voltar para a minha terra, San Felipe. Falo todos os dias com minha família. Eles estão felizes e me pedem que faça as coisas direito e mantenha a boca fechada para evitar problemas. Mas quando as coisas estão ruins elas têm que ser ditas", afirma o professor.