"Ingrid da selva", uma sátira em quadrinhos que acaba com Betancourt

Agência AFP

PARIS - "Ingrid da selva", uma história em quadrinhos divertida e cruel sobre Ingrid Betancourt, obra de três franceses cujo humor provocativo e ácido não poupa ninguém, chega às livrarias nesta quarta-feira na França, poucos dias antes do lançamento do livro escrito pela ex-refem franco-colombiana da guerrilha das Farc.

A obra, da editora Fluide Glacial. satiriza Betancourt, chamada de Ingrid "Petancourt", e faz piada não apenas de seus anos de cativeiro e de seu resgate triunfal, como também dos governantes do país chamado "Colombin", dos guerrilheiros da "Farce" e dos líderes da França, ridicularizando em especial um diminuto "Nicolas Sarko".

A ex-candidata à presidência da Colômbia é retratada como uma mulher ambiciosa e egoísta, uma hipócrita que bate no peito que é devota da Virgem e do Papa, mas que se comporta como um verdadeiro monstro com os outros reféns, de quem rouba as porções de comida e a quem delata aos guerrilheiros.

No livro escrito e desenhado por Serge Scotto, Eric Stoffel e Richard Di Martino, a Ingrid da selva é servil com os líderes guerrilheiros e se mostra ingrata depois da espetacular libertação por um comando de agentes ocidentais que usam camisas com a inscrição "Chien Guevara" ("Cão Guevara") e bigodes falsos.

"Ingrid da selva" foi escrito antes de Betancourt, que deve lançar na próxima semana um livro que relata os anos de cativeiro, ter apresentado um pedido de indenização de oito milhões de dólares, o que fez desabar sua popularidade e abalou sua imagem de heroína, que passou a ser bastante questionada após a libertação.

No livro, Petancourt entra na selva, em uma área controlada pelas Farce, depois de ter planejado com o ex-amante, o barbudo guerrilheiro "companheiro Raúlo", seu sequestro, que, segundo ela, significaria apoio popular e a ajudaria a ser a primeira presidenta de "Colombin".

Mas Petancourt não contava com a traição do líder guerrilheiro: as Farce a capturam de verdade e mantêm como refém por seis anos.

A história também ridiculariza suas tentativas de fuga e ironiza os dirigentes políticos que tentam tirar proveito do "caso Petancourt", como "Nicolas Sarko", que acaba de ser eleito presidente da França e, abandonado pela esposa, procura uma namorada e encontra "Carla Bruti".

Sarko se apropria de maneira feliz da causa de "Petancourt", sobretudo porque seus rivais políticos, o ex-presidente "Jacques" (Chirac) e o seu primeiro-ministro, "Dominique de Grillepin", eterno enamorado de Ingrid, fracassaram de maneira retumbante ao tentar resgatá-la das Farce.

A publicação da sátira demolidora de 46 páginas não acontece em um bom momento para Ingrid Betancourt.

A ex-refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) busca recuperar com seu livro o prestígio perdido após a libertação, pelo excesso de exposição e pelos muitos passos em falso.

O vergonhoso incidente a respeito do Prêmio Nobel da Paz, quando a fundação que leva o nome dela reagiu de maneira agressiva ao saber que Betancourt não era a vencedora, também contribuiu para arranhar sua imagem, assim como as versões negativas a seu respeito por parte de alguns companheiros de cativeiro, entre eles Clara Rojas, que era candidata a vice na chapa da política e foi raptada com ela.

Um americano que foi refém das Farc e esteve no mesmo campo que Ingrid fez um retrato devastador de Betancourt, descrevendo situações em que a colombiana é mostrada como uma mulher manipuladora e odiosa.

Segundo uma pesquisa do instituto Ivamer Gallup publicada em julho, 80% dos colombianos têm uma imagem desfavorável da ex-refém, que ao deixar a selva para muitos teria um futuro político brilhante.