Massacre, explosão, policiais desaparecidos: México em erupção

Agência AFP

CIUDAD VICTORIA - Um carro-bomba contra a maior estação de televisão do país; rumores sobre assassinatos de policiais que investigam o massacre de 72 imigrantes clandestinos: o clima de tensão aumenta no nordeste do México após a matança atribuída à gangue dos "Zetas".

O carro-bomba explodiu de madrugada, sem fazer vítimas, diante dos escritórios do canal Televisa - primeira rede de língua hispânica no mundo - em Ciudad Victoria, capital do Estado de Tamaulipas (nordeste), a 150 km da fazenda da pequena cidade de San Fernando onde 72 corpos de imigrantes foram descobertos na terça-feira.

"Felizmente, nenhum de nossos colegas foi morto", anunciou o apresentador do jornal matinal da Televisa.

Nenhuma reivindicação, mas toda a região suspeita de um desafio dos "Zetas", dos quais três membros foram mortos e um preso na incursão militar lançada contra a fazenda.

A sombra dos "Zetas" está presente nos rumores de desaparecimento ou assassinato de dois policiais em San Fernando.

O Ministério Público examina "diferentes versões", informaram funcionários à AFP, sem precisar se estes policiais participavam diretamente da investigação sobre o massacre dos clandestinos. "Eles nada tinham a ver com o processo em curso de autópsias e identificação" dos corpos, indicaram apenas.

Trinta e uma vítimas já foram identificadas, com a ajuda de delegações consulares de Brasil, Equador, Salvador e Honduras que chegaram na quinta-feira à região.

Quatorze dessas vítimas são de Honduras, 12 du Salvador, quatro da Guatemala e uma do Brasil, segundo o Ministério Público.

A alta Comissária da ONU dos direitos humanos, Navi Pillay, pediu ao México uma "investigação independente" sobre o massacre.

"Estou profundamente chocada com essas matanças, que põem em evidência a situação crítica dos imigrantes" no México, disse ela num comunicado.

O presidente mexicano Felipe Calderón já tinha "condenado energicamente" o massacre, consequência, segundo ele, da rivalidade sangrenta entre os "Zetas" e o cartel "do Golfo", que se tornaram inimigos.

Os "Zetas" sequestram imigrantes para trabalhar para o grupo. Um sobrevivente do massacre confirmou que haviam proposto aos clandestinos juntar-se às suas fileiras por 2.000 dólares mensais, antes de abatê-los, pela recusa.

Calderón não poupou reprovações a esta "guerra dos cartéis" que envolve sete grandes grupos de traficantes de drogas, através do país, e que já fez 28.000 mortos desde que chegou à presidência, em dezembro de 2006.

"O nível de impunidade no país é escandaloso", acusou o direitor da organização de defesa dos direitos humanos do México, Alberto Herrera.

Os "Zetas" são temidos no nordeste mexicano, e a discrição da mídia local em relação ao grupo ilustra bem a situação: enquanto a mídia do mundo inteiro anunciou o massacre de San Fernando, nenhum jornal da região deu primeira página ao assunto, relegando-o a espaços internos.

"Os assassinos de jornalistas não se contentam mais com ataques à mão armada, sequestros e tortura, eles acrescentaram um carro-bomba (...) para fazer calar a imprensa", comentou o Instituto Internacional de Imprensa (IPI).