Quadrinhos conquistam espaço na Flip

Portal Terra

DA REDAÇ O - Neil Gaiman, Robert Crumb, Gilbert Shelton, os irmãos Bá... A organização da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) tem investido, nos últimos anos, na vinda de cartunistas para participarem de palestras sobre um assunto que desperta a atenção de muita gente: as revistas em quadrinhos, também conhecidas como HQs. Se até pouco tempo atrás os quadrinhos não eram considerados como literatura pelos mais tradicionais, agora a realidade parece estar mudando.

Este ano a sensação da Flip foi o cartunista norte-americano Robert Crumb, que veio à Paraty acompanhado da esposa Alice Crumb e do amigo cartunista Gilbert Shelton. Amado por uns e contestado por outros, Crumb não tenta parecer simpático para agradar o público. Seu jeito sisudo e assumidamente antissocial ficou evidente a todos que tiveram a oportunidade de assistir à mesa A origem do universo.

Ainda assim, Robert Crumb conversou brevemente com dois fãs que estão em Paraty. Em uma entrevista coletiva, o cartunista também falou sobre a importância de um evento como a Flip para quem está começando no mundo das artes literárias, particularmente dos quadrinhos.

"É interessante ver os jovens fazendo quadrinhos. Na Filadélfia é possível publicar quadrinhos em preto e branco, isso é excelente. Conversei com dois jovens cartunistas daqui e eles me disseram que é muito difícil entrar no mercado de quadrinhos. Quando você faz algo difícil e diferente, o lado comercial não quer se arriscar. É uma batalha quando o seu trabalho é original. Às vezes, a melhor saída é conseguir um emprego de verdade ou viver com a mãe", brincou Robert Crumb, em um dos poucos momentos que sorriu.

Ao ser perguntado sobre as novas gerações de cartunistas, Gilbert Shelton demonstrou que não está interessado com os possíveis novos talentos que estejam surgindo no mercado, e nem pensa em exibir suas obras em uma galeria de arte.

"Eu não conheço os jovens... (risos). Quando eu comecei, a arte de quadrinhos não valia nada, mas hoje existe muito dinheiro envolvido. Não estou muito ligado a esse mundo da arte. Colocar um trabalho meu em uma galeria de arte seria bizarro pra mim", contou Shelton.

O diretor de programação desta edição da Flip, Flávio Moura, considerou como positiva a vinda de Crumb ao Brasil.

"Foi uma surpresa. O Crumb era a maior figura do mundo dos quadrinhos que poderíamos trazer neste momento. Era um desafio trazer uma lenda viva. É interessante para o público daqui estar perto de um profissional como o Crumb. A lógica da Flip é essa, aproximar o leitor do escritor que ele mais gosta. Desse ponto de vista, foi sensacional ele ter ido ao palco. Porque certa vez, durante um festival na Europa, ele entrou num sebo e ficou encantado com os discos, e não foi para o palco. Ele aproveitou um dia inteiro aqui em Paraty com os amigos e a esposa", vibrou Fábio.

A editora Conrad, com sede em São Paulo, começou a publicar quadrinhos em 1999. Naquela época não havia espaço para HQs nas prateleiras das livrarias, títulos de Robert Crumb, por exemplo, eram misturados a obras infantis. Atualmente isso não acontece mais. Pelo contrário. As entradas das livrarias (espaço nobre) são dos quadrinhos.

"O crescimento dos quadrinhos acontece no mundo inteiro. O segmento é o que mais evolui. A crise só não foi pior no mercado de livrarias nos Estados Unidos graças aos quadrinhos. Na França e no Brasil há recordes seguidos", comemorou Roberto de Campos, diretor da Conrad, que prepara o lançamento, em português, do livro Meus problemas com as mulheres, de Robert Crumb.

"Isso é o reconhecimento da importância dos quadrinhos hoje em dia. Durante muito tempo era uma linguagem tratada como coisa de criança, era a nona arte, ainda que tenha sido criada antes do cinema. Os quadrinhos atualmente estão mais vivos do que outras linguagens, que ainda sentem o peso do passado, como é o caso dos romances de Cervantes e Dostoyevscky. Enquanto pessoas do mercado da música e do cinema entraram em pânico com a chegada da internet, os quadrinho