Mortalidade dobra em pior onda de calor já registrada na Rússia

Agência AFP

MOSCOU, RÚSSIA - A taxa de mortalidade diária em Moscou dobrou e os necrotérios estão lotados por conta da névoa causada pela pior onda de calor na Rússia em mil anos de história, disseram fontes oficiais nesta segunda-feira.

A fumaça causada pelos incêndios florestais nos campos, a cerca de 100 km da cidade, atinge Moscou há vários dias, entrando nos apartamentos, escritórios e até mesmo no metrô, fazendo diversas pessoas deixarem a cidade.

"Normalmente, em torno de 360 a 380 pessoas morrem todos os dias. Agora, essa média está em 700", disse o chefe do departamento de saúde de Moscou, Andrei Seltsovsky, às emissoras locais, completando que os necrotérios da cidade estão quase atingindo sua capacidade total.

Enquanto isso, serviços de emergência reportaram em torno de 557 incêndios florestais em 174.000 hectares na Rússia central e na região de Moscou. As chamas estão inclusive se aproximando de uma usina nuclear nos Montes Urais.

O primeiro-ministro, Vladimir Putin, anunciou que o recorde de seca irá afetar a colheita de grãos no maior produtor mundial de trigo, que se reduzirá em cerca de 10 milhões de toneladas.

Segundo as emissoras locais, a fumaça atingiu a segunda maior cidade russa, São Petesburgo, e a principal cidade da região dos Montes Urais, Yekaterinburg.

O chefe da meteorologia russa, Alexander Frolov, disse que a onda de calor foi a mais grave em um milênio de história.

"Nenhuma onda de calor semelhante foi registrada por nós ou por nossos ancestrais", disse em coletiva de imprensa. "Este é um fenômeno completamente único."

Mais de 104.000 pessoas - um número recorde para o ano - deixaram Moscou no domingo de avião, segundo o porta-voz da agência de aviação civil russa, Rosaviatsia, Sergei Izvolsky, à AFP.

A cifra para o mesmo dia um ano atrás era de em torno de 70.000 pessoas, disse.

Muitos dos que ficaram na cidade colocaram máscaras para se proteger da névoa, enquanto a mídia local acusa as autoridades de não divulgar o real nível do desastre ambiental e das mortes causadas pela onda de calor.

O serviço de monitoramento da poluição atmosférica Mosekomonitoring informou nesta segunda-feira que o nível de monóxido de carbono no ar de Moscou estava 2,2 vezes maior que os níveis aceitáveis. Essa taxa ficou 3,1 vezes pior no domingo e 6,6 vezes pior no sábado.

Muitos moscovitas culpam o governo pela catástrofe, dizendo que este não está fazendo o suficiente para proteger as pessoas da névoa, e usuários de blogs dividiam dicas de sobrevivência que incluiam produzir oxigênio em casa e dormir na varanda.

"Não sei quanto tempo vamos durar", disse a aposentada Rimma Zgal à AFP. "É impossível dormir à noite."

As autoridades russas declararam estado de emergência na cidade próxima aos Montes Urais Ozersk, local da usina nuclear de Mayak, devido aos incêndios.

Eles também têm trabalhado para apagar o fogo perto de Snezhinsk, outra cidade nos Montes Urais e sede de um dos principais centros russos de pesquisa nuclear. Fontes oficiais afirmam que o fogo foi controlado nessa região.

Putin anunciou que a colheita de grãos da Rússia para 2010 seria de 60-65 milhões de toneladas, de acordo com as agências de notícias. Mas na semana passada a previsão era de 70-75 milhões de toneladas.

A Rússia viu 10 milhões de hectares de terra serem destruídos por conta da seca e as novas cifras representam uma forte queda na comparação com a colheita de 2009, que chegou a 97 milhões de toneladas.

A forte seca fez com que fosse declarado estado de emergência em 27 regiões e representou um golpe nas ambições da Rússia de ampliar sua fatia no mercado global nos próximos anos.

Putin chocou o mercado internacional na semana passada ao anunciar que a partir de 15 de agosto a Rússia irá interromper as exportações de grãos para manter os preços em baixa no mercado local e garantir fornecimento de alimento para o gado.