Anúncio de novas sanções na ONU revela o poder de Estados nucleares

Evelyn Soares , Jornal do Brasil

RIO - A quarta rodada de sanções contra o programa nuclear iraniano aprovada quarta-feira pelo Conselho de Segurança da ONU não afetará, na prática, Brasil e Turquia, os únicos países dos 15 membros do órgão a votarem contra a resolução, afirmaram diplomatas e cientistas políticos brasileiros entrevistados pelo Jornal do Brasil. Pelo contrário, a rejeição das potências nucleares ao acordo mediado mês passado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o premier turco, Recepp Erdogan, em Teerã, revelou a incoerência dos membros do Conselho com poder de veto, além de evidenciar, segundo o professor de história contemporânea da UFF Bernardo Kocher, o poder da pressão americana diversificada na vida política de países mais fracos .

Essa resolução é mais um ato político do que técnico, pois não há explicações convincentes para o Conselho rejeitar o acordo de Teerã argumentou Kocher. Enquanto os EUA jogaram uma cartada decisiva e mostraram que estão mais interessados em punir do que remediar, o Brasil passou por cima da superficialidade, mostrando que é importante conduzir de forma coletiva as decisões internacionais.

A possibilidade de o resultado da votação provocar o isolamento político do Brasil foi afastada pelo advogado e doutor em direito internacional pela USP, Eduardo Felipe Matias.

A culpa não é do Brasil, da Turquia ou dos EUA, e sim do próprio Irã, que não consegue demonstrar que seu programa tem fins pacíficos resumiu.

Já o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, questionou a pressa das potências em aprovar a resolução proposta pelos EUA. Segundo Amorim, a rapidez em votar as sanções se deve ao fato de a opinião pública internacional ter começado a ver de modo favorável o acordo de Teerã.

Depois que o acordo apareceu, houve uma pressa imensa em aprovar a resolução disse. Por que essa pressa? Porque a opinião internacional, cada vez mais, via os méritos da Declaração de Teerã.

Amorim lembrou a carta que o presidente americano Barack Obama enviou ao Brasil duas semanas antes da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Teerã apoiando a mediação brasileira, e afirmou que, ao contrário de muitos países membros do Conselho, o Brasil votou contra as sanções porque não deve ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e pode seguir suas convicções .

O Brasil não está defendendo o Irã, mas defendendo a paz, concebida pelos Estados Unidos e pela Agência Internacional de Energia Atômica [AIEA] disse. Felizmente o Brasil não deve ao FMI e votou de acordo com suas convicções. Não me sinto isolado.

Por sua vez, o presidente Lula classificou as novas sanções como um equívoco , e uma vitória de Pirro expressão que explica uma vitória obtida a um alto custo, com prejuízos irreparáveis que enfraquece o Conselho.

Em vez de chamarem o Irã para negociar, eles resolveram, apenas por birra, manter a sanção. É um episódio que enfraquece o Conselho. Nós estamos tentando reformá-lo há mais de 17 anos.

Irã promete continuar enriquecendo urânio

As novas sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o Irã não valem um centavo e devem ir para o lixo , declarou quarta-feira o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, minutos depois do anúncio da votação no Conselho.

Disse a um deles (representantes das potências) que estas resoluções votadas são só lenços usados e devem ir para o lixo vociferou.

O presidente americano Barack Obama defendeu que a medida manda uma mensagem clara ao Irã mas que não fechará as portas da diplomacia.

Já o porta-voz do Departamento de Estado americano, Philip Crowley, disse que os EUA respeitam o ponto de vista diferente do Brasil e da Turquia, embora ambos os países devam explicar o significado de seus votos .

Preferindo não se identificar, um diplomata americano envolvido nas negociações foi ainda mais incisivo e crítico da postura brasileira e turca:

Países que pretendem assumir uma posição de liderança global deveriam defender o sistema internacional e suas regras, e não aqueles que as violam.

O Ministério russo das Relações Exteriores anunciou que a nova série de sanções visa dar um impulso a uma solução diplomática, enquanto a Turquia disse temer exatamente o oposto: que sanções dificultem a diplomacia.

A Turquia teme que as novas sanções da ONU contra Teerã comprometam uma solução diplomática relacionada ao polêmico programa nuclear do Irã.

Ecoando as palavras conciliatórias de Obama, o porta-voz da chancelaria da França país cujo presidente Nicolas Sarkozy havia encorajado o empenho do Brasil como mediador disse que a porta do diálogo continua aberta para o Irã, apesar da adoção das sanções.

Na véspera da votação no Conselho de Segurança, entretanto, o governo iraniano deixou claro que uma nova resolução na ONU afastaria o país ainda mais da mesa de negociações.

Quarta-feira, o embaixador iraniano na AIEA, Ali Asghar Soltanieh, disse que as novas sanções não farão com que o Irã interrompa suas operações de enriquecimento de urânio.

Nada mudará. Continuaremos nossas atividades de enriquecimento sem nenhuma interrupção.