Paris tem cerimônia ecumênica em memória das vítimas do voo AF447

Agência AFP

PARIS - Centenas de familiares das 228 vítimas do voo AF447 Rio-Paris, que caiu há um ano no Atlântico, funcionários e diretores da Air France, assim como autoridades francesas, assistiram nesta terça-feira em Paris a uma cerimônia ecumênica de homenagem e recordação.

Mais de 1.150 pessoas, entre elas 900 familiares - 138 que chegaram na segunda-feira do Brasil - acompanharam a solenidade celebrada a portas fechadas em um salão do Parque Floral, na zona leste da capital francesa.

O secretário de Estado francês para os Transportes, Dominique Bussereau, o diretor da Air France, Pierre Henri Gourgeon, o diretor do Birô de Investigações e Análises (BEA), Jean Paul Troadec, e o secretário-geral da empresa aeronáutica europeia Airbus, Marc Fontaine, também estavam presentes no ato de homenagem às vítimas.

A cerimônia, organizada pela Air France, teve início às 10H00 (5H00 de Brasília) em uma manhã nublada. O objetivo, segundo a empresa, era compartilhar um momento de dor e de recolhimento.

A bordo de 10 ônibus, parentes das vítimas procedentes da França, Brasil, Alemanha e Itália começaram a chegar ao parque uma hora antes.

"Ceremony - Cerimônia - Cérémonie - Zeremonie" afirmava uma faixa colocada na entrada do parque, onde alguns familiares chegaram cedo para aguardar a autorização e entrar no local, como a brasileira Julienne Owonolo, de 27 anos, que perdeu o pai na tragédia do Airbus A330 da Air France.

"Para ser honesta, sou testemunha de Jeová e acredito que não é necessário fazer cerimônias e depositar flores. Rezo por meu pai todos os dias", explicou a jovem.

Natural do Rio de Janeiro, a advogada declarou-se "confiante" de que algum dia as causas da tragédia sejam conhecidas. Até o momento o acidente não tem uma explicação técnica, pois as caixas-pretas nunca foram encontradas.

"Ainda não sabemos a verdade sobre o que aconteceu, mas algum dia saberemos", declarou a jovem antes de completar que já recebeu parte da indenização.

"Esperamos que o restante não demore 10 anos", completou.

Até o momento, o BEA considera que um funcionamento equivocado das sondas (sensores de velocidade) Pitot (da fabricante francesa Thales) é um dos fatores do acidente, mas apenas as caixas-pretas permitirão a compreensão exata da tragédia.

Mas Nelson Marinho, que falou em representação das famílias brasileiras, afirmou ao fim da cerimônia que viajou a Paris para protestar contra o BEA, que segundo ele "nunca foi transparente, que começou do zero e terminou no zero" as investigações para esclarecer as causas do acidente.

"Continuamos sem saber nada sobre o ocorrido porque eles não querem saber", completou, em referência a Air France, Airbus, BEA e Thales.

"As grandes empresas não querem conhecer a verdade porque são culpadas, e quando há culpados em um tribunal é preciso pagar importantes indenizações", disse.

A justiça brasileira condenou em março a Air France a pagar 2,04 milhões de reais por danos morais à família de uma das vítimas em uma das primeiras sentenças após a tragédia, que matou 12 tripulantes e 216 passageiros.

Funcionários da Air France vestidos com o uniforme de trabalho compareceram à cerimônia em memória dos 12 companheiros que integravam a tripulação do AF447.

Na segunda-feira, associações de parentes das vítimas exigiram em Paris a participação de especialistas internacionais nas investigações, a criação de uma comissão de perícia pan-europeia e uma quarta busca das caixas pretas.

Para Marinho é "inconcebível" que as caixas-pretas ainda não tenham sido encontradas com todos os meios mobilizados, assim como uma turbina de aço que tem o tamanho de uma casa.

Após um almoço oferecido no mesmo local, as famílias visitaram o cemitério parisiense de Père Lachaise, onde foi inaugurado um monumento idêntico ao construído no Rio de Janeiro, com 228 andorinhas impressas em um material transparente.

Durante a cerimônia no Parque Floral, líderes de quatro religiões - católica, muçulmana, protestante e judaica - e familiares das vítimas leram textos e poemas entregues aos participantes em seis idiomas, entre eles o português.

Entre as obras escolhidas estavam trechos do Pequeno Príncipe, de Saint-Exupery.