Polêmica Brasil-EUA ofusca Fórum das Civilizações

Agência AFP

RIO DE JANEIRO - O tema 'Interligando culturas, construindo a paz' ficou em segundo plano na abertura das atividades do III Fórum da Aliança das Civilizações, nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro, ofuscado pela polêmica criada pela crescente tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos em torno da questão nuclear iraniana.

Durante a sessão inaugural, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, afirmou que a missão da Aliança das Civilizações é "enfrentar preconceito e desentendimentos, buscando maneiras de construir comunidades baseadas na convivência pacífica, na confiança e no respeito mútuo".

No entanto, o que mais chamou atenção nos discursos foi a resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à secretária de Estado americana Hillary Clinton, que na quinta-feira declarou que o acordo nuclear negociado com os iranianos por Lula e pelo primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, "torna o mundo mais perigoso".

"A existência de armas de destruição em massa torna o mundo mais perigoso", disse Lula, falando para uma plateia formada por autoridades e representantes dos 119 países que participam do fórum.

Sem mencionar nomes, Lula fez duras críticas à atitude dos Estados Unidos, criticando aqueles que utilizam "teses sobre uma suposta fratura de civilizações como pretexto para ações bélicas, ditas preventivas".

Numa aparente alusão à insistência americana de aprovar novas sanções contra Teerã no Conselho de Segurança da ONU, disse que "posições inflexíveis só ajudam a confrontação e afastam a possibilidade de soluções de paz".

O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que também discursou na abertura do fórum, demonstrou estar em sintonia com o presidente brasileiro, fazendo uma crítica velada ao Ocidente e aos Estados Unidos e mencionando abertamente a questão nuclear iraniana.

"Quando ouvimos aqueles que falam em impedir que o Irã consiga armas nucleares, percebemos que eles próprios possuem armas nucleares", destacou.

"Aqueles que acreditam que o mundo é feito para seu próprio benefício não compreendem a dinâmica da integração", disse o primeiro-ministro turco. "É muito errado impor seus valores e seu julgamento aos outros".

No dia 17 de maio, Lula e Erdogan se reuniram em Teerã com o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, para a assinatura de um acordo tripartite estabelecendo os termos para que 1.200 quilos de urânio iraniano enriquecidos a 3,5% sejam enviados à Turquia, que os devolveria transformados em combustível para um reator nuclear.

As reações da comunidade internacional, no entanto, não foram tão entusiasmadas quando se poderia esperar, a começar pelos Estados Unidos, que se mantêm firmes nas negociações para aprovar um novo pacote de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU.

Na quarta-feira, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, declarou que os Estados Unidos têm neste momento divergências muito sérias com a diplomacia brasileira em relação ao Irã, acusando Ahmadinejad de usar o acordo tripartite para ganhar tempo para o desenvolvimento de seu programa nuclear.