Brasil-EUA: divergências não prejudicam relações

Agência AFP

BRASILIA - As relações entre Brasil e Estados Unidos foram abaladas por divergências no caso nuclear iraniano, mas não serão drasticamente afetadas porque ambos têm interesses comuns muito mais profundos, afirmaram analistas consultados pela AFP nesta sexta-feira.

O acordo entre Brasil e Turquia com o Irã para o enriquecimento de urânio iraniano fora de suas fronteiras provocou uma troca de declarações que subitamente foi subindo de tom.

Na quinta-feira, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, admitiu que os Estados Unidos têm "fortes divergências com o Brasil" no caso do programa nuclear do Irã, ainda que, de acordo com ela, mantenham boas relações com o governo brasileiro.

"Estamos falando de uma máquina na qual entrou areia na engrenagem. É uma areia muito fina em uma grande máquina que dificilmente será detida por essa areia", disse o analista político André César, da consultora CAC, à AFP.

Para o especialista, Brasil e Estados Unidos mantêm um diálogo "maduro e que se estende a praticamente todos os assuntos, onde existe confiança mútua", e por isso é improvável que as divergências surgidas nesta semana tornem-se problema real em suas relações.

Já Carlos Teixeira, professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que "é possível que Brasil e Estados Unidos nunca tenham tido um diálogo tão bom, tão amplo e tão maduro. Inclusive nas divergências".

O tom adotado para expressar as diferenças "indica uma crise de crescimento, a partir do evidente aumento da importância do Brasil como ator global", acrescentou.

"Brasil e Estados Unidos mantêm uma delicada negociação sobre represálias autorizadas pela Organização Mundial de Comércio pelos subsídios americanos ao algodão, e essas negociações seguem em um nível de alta competência, seriedade e maturidade", acrescentou.

Inclusive se for analisado o plano regional, não há motivos para pensar que Brasil ou Estados Unidos consideram positivo um deterioramento do diálogo, concordaram os analistas consultados.

"Os Estados Unidos não podem prescindir, por exemplo, da garantia de estabilidade e moderação que o Brasil representa na América do Sul, onde mantém um nível muito alto de diálogo tanto com a Colômbia como com a Venezuela. Não acredito que a divergência sobre o Irã possa atrapalhar essa relação de confiança", disse Cézar.

Teixeira lembrou que os EUA "têm que administrar duas partes muito complexas, Iraque e Afeganistão, e agora também a crise na península coreana", e que por isso é pouco provável que arrisque deteriorar uma relação de estabilidade regional, como a que têm com o Brasil.

Em contrapartida, os EUA são um mercado que o Brasil não pode desperdiçar, acrescentou.

O próprio chanceler brasileiro, Celso Amorim, afirmou na quinta-feira que seu país e os EUA "mantêm um diálogo marcado pela maturidade, a associação para grandes temas. Ainda que os amigos não tenham que estar de acordo sempre".