Irã: Brasil vira protagonista mundial

Joana Duarte , Jornal do Brasil

RIO - O governo brasileiro amanheceu segunda-feira nas manchetes dos mais importantes veículos da mídia global, ao conseguir o empenho do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, em remeter parte do seu urânio enriquecido a 3,5% para a Turquia, onde o material nuclear será enriquecido a 20% no prazo de um ano, e em seguida devolvido ao Irã para abastecer um reator de pesquisa na usina de Natanz, no centro do país.

Embora Estados Unidos, França, Rússia e Reino Unido tenham reagido com ceticismo ao acordo e afirmado que ele não deve invalidar os esforços do Conselho de Segurança da ONU na busca por uma nova rodada de sanções contra o programa nuclear iraniano, a concessão de Ahmadinejad representa uma vitória da diplomacia brasileira, que conseguiu intermediar um plano de paz proposto inicialmente pelas potências ocidentais sob os auspícios da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), e rejeitado pelo Irã em outubro do ano passado.

Antes de embarcar de volta ao Brasil, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, festejou o novo acordo, afirmando que a cooperação e a amizade venceram a pressão nas negociações. A análise do chanceler foi uma resposta ao governo dos Estados Unidos que lideram a campanha internacional em favor da imposição de sanções ao Irã, por desconfiar que seu programa nuclear esconde a intenção de produzir armas atômicas.

Nós conversamos de maneira respeitosa e com convicção, com países em desenvolvimento que compreendem e sabem falar de uma maneira que não seja impositiva alfinetou Amorim depois de firmar o acordo. A nossa linguagem não é a pressão. A nossa linguagem é de persuasão, amizade e cooperação.

Para o professor de história contemporânea e moderna da UFRJ, Francisco Carlos Teixeira, o acordo mediado pelo Brasil representa um desafio à diplomacia americana baseada no poder militar. Francisco Carlos argumenta que a posição teimosa do presidente Lula, que obteve resultados surpreendentes, conseguiu iniciar a desconstrução de uma ordem mundial mantida desde o fim da 2ª Guerra Mundial:

O novo acordo sinaliza uma democratização das relações internacionais disse o historiador em entrevista ao JB. Além disso, mostra que a concentração de força militar não é necessária para que se consiga negociar no cenário internacional, o que beneficia o Brasil.

Realçando ainda mais a imagem de Lula no cenário internacional, o primeiro-ministro português, José Socrates, afirmou domingo em entrevista à Folha de São Paulo que apoiaria uma eventual candidatura do presidente ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas.

Estaria na primeira fila desse apoio disse o premier. O presidente Lula é uma grande figura da política mundial.

Exigências

Entretanto, a proposta firmada por Irã, Turquia e Brasil não alcança, tecnicamente, o objetivo da proposta defendida pela AIEA em outubro, que era a de se obter uma pausa no programa nuclear iraniano para permitir negociações de fundo em um ambiente de confiança.

A AIEA pedia que o Irã enviasse, como prova de boa vontade, 70% das suas reservas de urânio à Rússia, onde seriam enriquecidos em 20%, transformados pela França em combustível e retornados para o reator de Teerã.

Desde então, o Irã duplicou suas reservas de urânio levemente enriquecido e também iniciou em fevereiro a produção de urânio altamente enriquecido em 20%, apavorando os ocidentais.

Os Estados Unidos ressaltaram em abril que a oferta da AIEA deve ser atualizada para levar em consideração as novas reservas e as novas capacidades de enriquecimento do Irã. Esta opção foi descartada por Teerã, que indicou segunda-feira que continuará enriquecendo urânio em 20%, aconteça o que acontecer.

Europa e EUA reagem com ceticismo e desconfiança

A imprensa internacional reagiu com ceticismo e surpresa ao acordo nuclear firmado segunda-feira por Irã, Brasil e Turquia. O New York Times destacou que a nova proposta pode atrapalhar as negociações sobre sanções ao Irã afirmação negada semana passada pela embaixadora americana na ONU, Susan Rice, em resposta a uma pergunta do próprio New York Times, segundo um porta-voz do Departamento de Estado.

O Washington Post foi mais longe, e disse que o Irã teria criado a ilusão de um acordo para adiar a imposição de sanções. Para o Post, a iniciativa brasileira e turca sinaliza uma revolta das pequenas potências que buscam poder e prestígio nuclear .

Em Israel, arquiinimigo do Irã e onde cada vez mais se enraiza o temor de que o país vizinho, liderado por um presidente que nega que o Holocausto tenha ocorrido, obtenha armas nucleares, a reação oficial foi de silêncio. O governo israelense simplesmente preferiu ignorar o acordo, que ainda considera altamente improvável.

De um modo geral, a população israelense reagiu com ceticismo e preocupação, já que a maioria não acredita muito nas boas intenções iranianas. Para os israelenses, o Irã usa o Brasil para adiar a imposição de sanções. A participação turca no acordo também foi motivo de surpresa em Israel, já que a Turquia é país membro da Otan e considerado um forte aliado dos EUA.

Pressão

Potências ocidentais também destacaram que o problema nuclear iraniano ainda não foi resolvido e que países do Conselho de Segurança devem manter a pressão sobre Teerã.

Tomamos conhecimento dos esforços feitos pela Turquia e pelo Brasil disse o porta-voz da Presidência americana, Robert Gibbs, referindo-se ao acordo como um passo positivo, mas ressaltando que a proposta anunciada deve ser submetida à AIEA antes que possa ser avaliada pela comunidade internacional .

Gibbs destacou ainda que as atitudes da República Islâmica no passado fazem com que os Estados Unidos e a comunidade internacional mantenham grandes preocupações sobre a questão nuclear .

Em nota, as Nações Unidas salientaram que, apesar de o acordo ser animador, as resoluções do Conselho de Segurança devem ser aplicadas.

Para a França, o acordo não soluciona o problema de fundo do programa nuclear iraniano, principalmente porque o Irã continua enriquecendo urânio.

>> Resumo do acordo

* TPN

Teerã reafirma seu compromisso com o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, incluindo o desenvolvimento de energia nuclear para fins pacíficos

* Não confronto

Acordo é início de proposta positiva e construtiva, em atmosfera de não confronto que conduz a uma era de interação e cooperação

* Cooperação

Troca de urânio é fundamental para cooperação em diferentes áreas de pesquisa

* Direito de propriedade

Urânio enriquecido na Turquia será de propriedade do Irã e submetido a inspetores internacionais

* Notificações

Teerã informará a AIEA sobre o acordo em um prazo de sete dias e espera uma resposta afirmativa

* Implementação

Irã enviará 1,200 quilos de urânio levemente enriquecido ao território turco

* Salvaguarda

Caso o acordo seja desrespeitado, Turquia envia urânio levemente enriquecido de volta ao Irã

* Expectativa

Turquia e Brasil manifestam confiança nas negociações entre o Irã e o grupo dos países 5 +1 (EUA, China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha)

* Elogios

Turquia e Brasil elogiam os compromissos firmados; Irã aprecia esforços construtivos