França espera localizar caixas-pretas do voo AF 447 até 4ª

Portal Terra

DA REDAÇÃO - As caixas-pretas contendo as últimas conversas entre os pilotos do voo AF 447 poderão ser resgatadas até a quarta-feira do fundo do oceano Atlântico, depois que uma nova análise dos dados recolhidos logo após o acidente, ocorrido há quase um ano, possibilitaram uma delimitação mais precisa da zona de buscas. O Escritório de Investigações e Análises (BEA, na sigla em francês), responsável pela investigação das causas do acidente com o Airbus que fazia o trajeto Rio de Janeiro-Paris, detalhou nesta segunda-feira, na capital francesan as próximas etapas das buscas.

- Nunca estivemos tão perto de localizar as caixas-pretas - afirmou o chefe das investigações, Alain Bouillard. "Estamos otimistas porque a semelhança dos sinais sonoros localizados são idênticos aos de uma baliza de caixa-preta de avião. Aparentemente, não poderia ser outra coisa que não as caixas-pretas que procuramos há quase um ano", disse.

O BEA iniciava aquela que seria a última fase de buscas no mar quando recebeu, na quinta-feira passada, um relatório da Marinha francesa informando que havia identificado a provável zona onde se encontram as caixas-pretas. A descoberta foi feita graças a um novo programa de computador, desenvolvido pela empresa de alta-tecnologia Thales, que identifica sons inaudíveis pelos programas utilizados anteriormente.

Através deste programa, os dados colhidos pelos submarinos na região do acidente, na época em que o avião caiu, foram estudados novamente. A nova análise possibilitou a identificação de sinais sonoros idênticos aos emitidos pelas caixas-pretas, que são equipadas de balizas que transmitem um alerta constante, com intervalos de um segundo, durante cerca de um mês após um eventual acidente. É através deste sinal sonoro que é possível localizar onde se encontram as caixas-pretas após um acidente aéreo no mar.

Na própria quinta-feira, o navio norueguês Seabed Worker - que realizava buscas na região do acidente munido de dois submarinos equipados com sonares - se dirigiu para a nova zona delimitada pelos especialistas. A partir da noite de quinta-feira, os submarinos vasculham uma zona de 200 km² ao sudoeste do último ponto conhecido do avião no oceano Atlântico.

Cerca de dois terços da área já foram verificados, através de mergulhos dos robôs que suportam até 20 horas de imersão. Em decorrência do tempo de imersão dos sonares e da falta de comunicação, não é possível precisar o que já foi encontrado até o momento. O BEA espera apresentar algum retorno sobre as buscas até a quarta-feira, mas ressaltou que, apesar do otimismo, o sucesso da operação não é garantido.

- Nós podemos estar muito perto, mas nada nos garante que vamos conseguir encontrar mais destroços, porque a zona é extremamente acidentada e profunda - afirmou o diretor do instituto, Jean-Paul Troadec. "E mesmo se encontrarmos as caixas-pretas, é possível que elas estejam tão deterioradas que não possamos aproveitá-las", disse o diretor. A zona de buscas comporta áreas de 2,6 mil a 4 mil m de profundidade. O BEA preferiu não estipular probabilidades de a operação ser bem-sucedida.

Meia-volta

Como o trajeto realizado pela aeronave previa uma subida ao norte, em direção à Europa, e os sinais sonoros identificados agora partem do sul em relação ao último ponto conhecido da aeronave, a hipótese de que o piloto do avião tenha tentado retornar ao Brasil após encontrar problemas foi levantada pelos especialistas do órgão francês.

- Os cientistas que trabalham conosco afirmam que as correntes marítimas não seriam capazes de arrastar um objeto pesado como um avião por uma distância tão grande, de 75 km em relação ao ponto em que aconteceu o último contato com a aeronave - disse Troadec. "A possibilidade de o piloto ter tentado dar meia-volta existe, mas só vamos poder entender por que isso teria acontecido se conseguirmos analisar as caixas-pretas", afirmou.

Outro detalhe que intriga os analistas é que os destroços e os corpos resgatados do mar uma semana após o acidente estavam a cerca de 100 km ao norte desta nova zona delimitada na semana passada. Mas, como estes elementos eram mais leves e foram encontrados boiando na superfície, é possível que tenham sido levados pela correnteza até um ponto tão distante de onde teria acontecido o acidente - enquanto que o restante do Airbus permaneceu na região da queda, segundo os especialistas.

Os investigadores advertiram que quaisquer outros elementos que possam ser localizados nesta nova fase, como a carenagem do avião, também serão importantes para o esclarecimento do acidente. Mas reduziram as chances de elucidação sem as gravações das caixas-pretas. "Cada elemento conta muito para reduzir ao máximo o número de hipóteses com que trabalhamos para entender o que aconteceu. No entanto, sem as caixas-pretas, é possível que nunca consigamos esclarecer todos os detalhes", disse o diretor do BEA.

Essa terceira fase de buscas vai até o dia 25 de maio, data em que se esgotarão os recursos adicionais de 3 milhões de euros disponibilizados pela Air France e a fabricante Airbus. O BEA não soube precisar se as buscas se encerrarão definitivamente após este prazo, em caso de fracasso na fase atual de pesquisas.