Reino Unido: 'Tories' buscam coalizão para governar

Jornal do Brasil

LONDRES - O líder conservador David Cameron, cujo partido venceu em votos e cadeiras as eleições gerais de quinta-feira, mas sem maioria absoluta, ofereceu sexta-feira um acordo global de governo aos liberais-democratas de Nick Clegg, a terceira força do Parlamento.

Ressaltando que a Grã-Bretanha precisa combater urgentemente seu déficit recorde e tranquilizar os mercados financeiros, Cameron disse que havia muitas áreas em comum com os liberais democratas e que ele via a base para um forte governo.

Quero fazer uma oferta grande, aberta e global aos liberais-democratas. Quero que trabalhemos juntos para enfrentar os problemas maiores e urgentes de nosso país declarou em uma entrevista coletiva em Londres.

Cameron também destacou, entretanto, que em algumas áreas não está disposto a negociar, como a questão da Europa e a imigração.

Clegg, que apesar de ter eleito um número discreto de deputados para a Câmara dos Comuns tem a possível chave do novo governo, afirmou mais cedo que os conservadores, apesar de não terem obtido a maioria absoluta, têm a prioridade para tentar formar um governo.

A posição foi um novo golpe para o primeiro-ministro trabalhista Gordon Brown, que em uma breve declaração à imprensa em Downing Street disse entender e respeitar a opinião de Clegg.

Cameron e Clegg devem claramente ter o direito de tomar o tempo que acreditam ser necessário disse.

Mas Brown completou em seguida que se as discussões não derem em nada, então certamente estaria preparado para conversar com Clegg sobre os temas nos quais pode existir algum tipo de acordo entre os dois partidos.

Meu dever com o país que sai destas eleições é desempenhar um papel para que a Grã-Bretanha tenha um governo forte, estável e de princípios declarou Brown.

O atual cenário de hung Parliament (Parlamento enforcado), em que nenhum partido conquistou maioria total para poder legislar sem outro partido, não acontecia na Grã-Bretanha desde 1974.

Segundo os resultados finais da votação, os tories elegeram 306 deputados na Câmara dos Comuns, os trabalhistas 258 e os liberais-democratas 57.

Os outros pequenos partidos e candidatos independentes obtiveram 28 deputados, segundo as cifras das 649 sessões nas quais foram realizadas as eleições de quinta-feira.

O Parlamento ficará em recesso até o dia 18 de maio a espera da formação de um novo governo. Se nada for decidido pelos políticos, entra em cena a Rainha Elizabeth, que terá de convocar novas eleições.

Clegg decepciona, e partido perde assentos

Os Liberais-Democratas de Nick Clegg estão tentando entender por que a popularidade de seu líder não refletiu nos resultados esperados nas eleições britânicas, mesmo que o partido tenha a chave para a decisão entre um governo conservador ou trabalhista.

Logo pela manhã, Clegg reconheceu que seus resultados foram decepcionantes. Enquanto algumas pesquisas apontavam para uma centena de deputados eleitos do partido na nova Câmara dos Comuns, os chamados Lib Dems tiveram de se contentar com apenas 57 dos 650 assentos menos do que contavam antes das eleições

Não conseguimos o que esperávamos admitiu Clegg, que se tornou estrela nacional depois de liderar o primeiro debate televisivo contra o primeiro-ministro Gordon Brown e o conservador David Cameron, em meados de abril.

Este revés eleitoral foi uma surpresa e um fracasso para Clegg. De acordo com vários analistas, o candidato liberal acabou pagando caro por sua hesitação sobre uma possível aliança com o Partido Trabalhista de Brown.

O professor Steven Fielding, da Universidade de Notthingham, adianta outra justificativa:

A maioria das pessoas que apoiaram Clegg no debate não sabia realmente o que defendiam os Lib Dems.

Além disso, algumas partes do seu programa de governo, em particular sobre questões da União Europeia e imigração, são extremamente impopulares, acrescentou Fielding, referindo-se à proposta de Clegg favorável a uma entrada em longo prazo do Reino Unido na zona do euro, ou a de regulamentar os imigrantes sem documentos.

Fracasso ou não, os Lib Dems estão, paradoxalmente, em uma posição decisiva entre conservadores, que não obtiveram a maioria absoluta, e Brown, que quer seus votos para permanecer no poder.