Medvedev critica governo stalinista

Jornal do Brasil

MOSCOU - A dois dias da comemoração do 65º aniversário da vitória russa sobre a Alemanha de Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial, o presidente Dmitri Medvedev cedeu longa entrevista ao jornal Izvestia, publicada sexta-feira. O ponto alto foram as duras críticas ao regime totalitário da União Soviética e aos crimes cometidos pelo ditador Joseph Stalin, um gesto simbólico do chefe de governo, que vem esforçando-se para modernizar a imagem da Rússia.

É preciso separar a missão do Exército Vermelho e da União Soviética durante a guerra e o que aconteceu depois sentenciou Medvedev. A União Soviética era um Estado muito complicado e, para ser honesto, o regime que foi instaurado na época só pode ser classificado de totalitário, onde os direitos e as liberdades foram suprimidos.

Medvedev reconheceu ainda que o domínio soviético sobre os países do Leste Europeu causou grande dor às nações do bloco.

É absurdo afirmar que o período do pós-guerra só trouxe prosperidade para os países libertados acrescentou.

As declarações vieram em momento delicado, já que, há várias semanas ocorre a polêmica iniciativa de glorificar o ditador, vinda de alguns veteranos e da prefeitura de Moscou. O governo de Stalin foi marcado pelo terror, pelas execuções sumárias e pelo envio de milhões aos gulags (campos de trabalho forçado).

Apesar de trabalhar muito, e apesar do país ter muitos êxitos sob sua liderança, o que fez contra seu próprio povo não pode ser perdoado enfatizou. .

Essa atitude da população demonstra a divergência de opiniões dentro do país. Para muitos na Rússia, o ditador é visto como um tirano e como o pai da vitória sobre os nazistas. Em pesquisa de opinião, 54% admitem que apreciam sua liderança.

O testemunho do presidente se integra com a recente liberação de documentos a respeito da execução de milhares de oficiais poloneses em Katyn, em 1940, sob mando de Stalin.

A mudança de postura do atual governo diverge da de Vladimir Putin, que, em 2005, classificou a queda da União Soviética como a maior catástrofe geopolítica do século 20.

Para Lev Ponomarev, defensor de direitos humanos e um dos críticos mais obstinados do Kremlin, o presidente russo fez uma declaração muito forte, esperada há muito tempo .

O restabelecimento da verdade histórica foi o ponto citado tanto pela imprensa quanto pelo analista político Alexander Konovalov. Além de melhorar a imagem pública de Medvedev, as declarações restituem a imagem da própria Rússia.

As declarações (...) estão dirigidas para o Ocidente e os liberais russos, mas não têm influência nas elites russas advertiu Nikolai Petrov, do Centro Carnegie.