Política de tolerância zero na Igreja

Jornal do Brasil

ROMA - O papa Bento XVI aceitou, esta semana, a renúncia de bispos envolvidos direta ou indiretamente em escândalos, numa mensagem clara de que a Igreja não aceitará nunca mais que padres abusem sexualmente de menores e confirma a nova linha de aplicar a tolerância zero frente à pedofilia.

O papa começa a fazer a limpeza na Igreja e se mostra mais rigoroso do que se esperava diz o o vaticanista Bruno Bartoloni. Também toma medidas exemplares contra os responsáveis de ter encoberto os casos.

Com estas medidas, Bento XVI demonstra que põe em andamento a operação limpeza, uma batalha moral e espiritual que sente profundamente , comentou outro vaticanista, Marco Politi.

Ontem, foi anunciado mais um afastamento de um clérigo importante da Igreja, o bispo belga Roger Vangheluwe, de 73 anos. Ele admitiu ter abusado de um menor.

Quando ainda era um simples sacerdote e durante um tempo após ser nomeado bispo, abusei sexualmente de um jovem que fazia parte do meu entorno confessou Vangheluwe em um comunicado divulgado pela Santa Sé.

A renúncia do bispo belga foi aceita com base em uma norma canônica que foi aplicada em pelo menos seis ocasiões no último mês e que autoriza a aposentadoria por doença ou por outras razões graves , sem especificar quais.

Vangheluwe é o primeiro bispo que renuncia por estar diretamente envolvido no abuso sexual de um menor após a onda de escândalos. Outros clérigos renunciaram aos cargos por terem encoberto os casos de pedofilia durante décadas.

Entre os que renunciaram por acobertamento, está o prelado irlandês Kildare e Leighlin, James Moriarty, que admitiu na quarta-feira que deveria ter questionado a cultura do silêncio dominante na Igreja de seu país.

Na Irlanda, onde explodiu no começo do ano o escândalo, seis bispos e bispos auxiliares envolvidos em investigações sobre abusos sexuais apresentaram sua demissão ao Papa, quatro das quais foram aceitas.

Até os anos 1990 era praticamente impossível desafiar a Igreja explica Kevin Lalor, psicólogo e diretor da Escola de Ciências Sociais no Instituto Tecnológico de Dublin.

A Igreja irlandesa se converteu, no início do século 20, numa força antibritânica antes da independência em 1921, afirma. A imensa maioria dos colégios e dos hospitais estava em mãos da hierarquia católica.

Os padres era o símbolo da moralidade e da castidade na Irlanda e eram muito respeitados. A comunidade, os amigos, a família não teriam acreditado nas vítimas explica Sue Donnelly, socióloga da University College, de Dublin.