Caos aéreo: brasileiros ainda presos no exterior

Evelyn Soares , Jornal do Brasil

RIO - Já faz exatamente uma semana que as emissões de cinzas vulcânicas do Eyjafjallajokull, na Islândia, preocupam especialistas e paralisam a Europa, transtornando a vida de muitas pessoas, entre elas brasileiros que não conseguiram voltar ao país ou seguir viagem pelo continente. Apesar da lenta normalização do tráfego aéreo iniciada terça-feira, muitos brasileiros permanecem ilhados no continente europeu.

Um deles é Vilmar Lopes, que chegou na Alemanha na quarta-feira passada para participar de uma feira industrial. Ele e os demais expositores foram surpreendidos pelo caos aéreo.

Cheguei a Hannover, mas ainda não sei quando vou retornar. Quero estar em casa no meu aniversário, dia 23, e comemorar com minha mulher, que está grávida, e meus três filhos disse.

Com trigêmeos de um ano à sua espera no Brasil, o casal Caroline Villar e Breno Bittencourt conseguiu marcar a volta a São Paulo no dia 4 de maio. Ambos viajaram a trabalho para Bolonha, na Itália, e não acreditaram quando viram o Aeroporto de Milão às moscas.

Também com a volta prevista para o dia 23 de abril está a jornalista da France-Presse Cecilia Gambôa, em Paris para um curso de especialização.

Sou diabética e estou com a insulina contada. Se fosse comprar, teria que gastar mais de 60 euros relatou.

Quem tentou ir para a Europa também teve os planos frustrados. A comerciante Mariza Rodrigues de Brito, que mora em Caçador, Santa Catarina, tentou visitar o filho Adalberto, que mora há nove meses em Paris. Com passagem remarcada para 3 de maio, o que resta é a ansiedade para matar a saudade.

Felizarda

A jornalista Isabella Rosado Nunes foi uma das primeiras a conseguir chegar ao Brasil após o cancelamento dos voos. Em viagem de trabalho em Paris, ela se encontrou com a sobrinha Yasmim Carvalho, e com a amiga, também jornalista, Cláudia Noronha. O espaço aéreo fechou no dia do voo de volta.

Minha filha ia fazer 15 anos na terça, eu precisava voltar pro Rio disse.

Com dificuldade para encontrar informações e sem alternativas, as três viajaram por 12 horas de carro, de Paris a Madrid, onde pegaram o voo para o Brasil.

Estou muito feliz de passar o aniversário da minha filha com ela. Mas a vida é assim, cheia de imprevistos finaliza.

Europa alivia restrições e retoma gradualmente o tráfego aéreo

A Europa começou terça-feira a levantar as restrições aéreas, o que permitiu a retomada de metade dos voos previstos para o dia no continente, ou seja, 14 mil dos 27 ou 28 mil programados normalmente. A estimativa, anunciada após a reabertura gradual dos espaços aéreos de alguns dos países mais afetados, como França, Bélgica e Grã-Bretanha, representa uma clara melhora em relação à média de 30% registrada nos últimos três dias de crise.

Segundo a Eurocontrol, organização europeia para a segurança de voos, nenhum aeroporto do continente figura mais na zona proibida ao tráfego aéreo. O órgão disse ainda que fará uma atualização das zonas afetadas pela movimentação da nuvem a cada seis horas.

Desde o início da paralisação aérea, há exatamente uma semana, mais de 80 mil voos foram cancelados no continente europeu, prejudicando o andamento da política, da economia, além dos deslocamentos de turistas.

A Eurocontrol mantém duas zonas fechadas para aviões, uma das quais se situa no norte do Reino Unido e cobre uma parte da Irlanda, mas não engloba nenhum aeroporto. Outra zona está fechada no Atlântico, partindo da Groenlândia e indo até o centro da Espanha, e próximo ao Canadá.

A proibição nesses locais se mantém para os voos a uma altura de até 20 mil pés, já que ali a concentração de cinzas vulcânicas é 10 vezes superior ao nível normal. Os pilotos voam acima desta altitude quando cruzam o Atlântico, e são informados durante o voo quando atravessam sobre esta área de perigo.

Erupção

A erupção do vulcão Eyjafjoll prossegue mas as cinzas expelidas há uma semana diminuíram claramente, afirmaram terça-feira cientistas irlandeses.

O vulcão começou a expelir lava na segunda-feira, o que fez com que a geleira que o cobre liberasse menos água no magma, reduzindo a quantidade de vapor e, em consequência, menos cinzas.

Para a Europa, a situação melhora, mas a erupção ainda não acabou alertou Gudrun Nina Petersen, da Agência Meteorológica Islandesa.

Segundo o vulcanologista francês Patrick Allard, a altura da coluna de cinzas diminuiu pela metade nas últimas 48 horas, porque há menos interação entre o magma e a geleira, que foi derretendo pouco a pouco e evaporou. Isto contribui para diminuir a intensidade da atividade explosiva. Atualmente, a espessa coluna não supera os 4 mil metros, segundo os cientistas, ou seja, abaixo dos ventos mais altos e mais fortes.

Segue saindo uma coluna da cratera, mas é menor e mais clara, o que significa que já não há muitas cinzas dentro garantiu Allard.

Quanto à suposta intensificação da erupção, uma geofísica da Universidade da Islândia, Sigrun Hreinsdottir, a desmente firmemente.

Seguimos constatando uma retração das atividades do vulcão, o que é um bom sinal afirmou.

No entanto, o presidente da Islândia, Olafur Grimsson, disse acreditar que a crise atual possa ser um pequeno ensaio de uma explosão maior que está por vir no vulcão Katla, que costuma entrar em erupção uma vez a cada século.