Caos aéreo: Europa libera corredores para aviões

Jornal do Brasil

LONDRES - Para o alívio de milhões de passageiros ainda impedidos de voltarem para casa pelo quinto dia consecutivo por causa da nuvem de cinzas vulcânicas que interditou grande parte do espaço aéreo sobre o norte europeu, ministros dos Transportes dos países atingidos resolveram, na noite de segunda-feira, suavizar as restrições aos voos. Sob pressão das companhias aéreas, que, com os cancelamentos, estão perdendo US$ 250 milhões por dia, as autoridades chegaram a um consenso em torno da criação de novas zonas liberadas ao tráfego aéreo, mantendo uma área de proibição nas regiões mais perto do vulcão e estabelecendo uma zona mais ampla, onde os voos estarão sujeitos a restrições de segurança e a verificações, mas não serão proibidos.

O novo sistema deve entrar em vigor terça-feira, mas deve excluir a Grã-Bretanha que, para o desconsolo de turistas e britânicos presos na ilha, segue coberta por uma espessa nuvem de cinzas, que à noite se intensificou.

Segunda-feira, o órgão de segurança aérea da União Europeia, o Eurocontrol, anunciou que aproximadamente 30% dos voos haviam sido retomados no continente, ao mesmo tempo que informava que as emissões do vulcão islandês começaram a perder força. Segundo o diretor da entidade, Bo Redeborn, se o vulcão continuar a reduzir suas emissões de cinza vulcânica, o tráfego aéreo sobre a maioria dos países europeus poderá normalizar-se a partir de quinta-feira. Pelo menos 63 mil voos foram cancelados desde o início do caos aéreo, o maior da história.

Podemos esperar um aumento dos voos entre 10% a 15% durante a terça-feira, e outros 10% a 15% no dia seguinte declarou Redeborn. Se tudo continuar como está, provavelmente voltaremos à normalidade na quinta-feira.

O Departamento Meteorológico da Islândia disse que a erupção do vulcão causou novos tremores segunda-feira na região, e que a coluna de cinzas já desceu para cerca de dois quilômetros de altura, após chegar a até 11 quilômetros na semana passada.

Alguns países como Áustria e República Tcheca abriram seu espaço aéreo segunda-feira, enquanto outros mantiveram os decretos de proibição de vôos, por precaução. A Itália fechou o tráfego aéreo no norte do país, após abri-lo por pouco tempo segunda-feira pela manhã, mas anunciou que vai reabri-lo terça-feira às 3h (horário de Brasília). A França afirmou que reabriria progressivamente os aeroportos e criaria um corredor aéreo para Paris, a fim de amenizar a crise nos transportes.

No Rio e em São Paulo, as empresas Air France e Lufthansa liberaram segunda-feira à noite quatro voos com destino a Paris, Frankfurt e Munique.

Ilhados

A nuvem vulcânica originária da Islândia vem impedindo milhares de brasileiros de voltarem para o Brasil. A assessora de imprensa Mariana Fonseca, 31 anos, viajou com um grupo de brasileiros para Milão, atraída por uma feira de móveis. Se não fosse o caos aéreo que os mantém presos na cidade italiana, o grupo embarcaria de volta para o Brasil, via Lisboa no último domingo.

Entramos em desespero. conta. Alguns brasileiros alugaram um ônibus por 13 mil euros (US$ 13.680), que vai demorar 20 horas até chegar em Lisboa, onde os voos para o Brasil estão liberados. Achei melhor ficar na casa de uma amiga em Milão. Vi brasileiros em pânico, temerosos de outras erupções.

Empresas aéreas criticam precaução exagerada

A decisão de fechar quase por completo o espaço aéreo europeu em consequência da nuvem de cinzas vulcânicas gerou críticas de companhias aéreas e especialistas, que questionam se os governos não levaram longe demais o princípio de precaução, como com a gripe H1N1.

O lobby das companhias aéreas foi o estopim das críticas, questionando ainda os argumentos científicos sobre o perigo das partículas que fundamentaram a decisão de manter em terra os aviões e, com isso, centenas de milhares de passageiros.

Os europeus ainda utilizam um sistema baseado em um modelo teórico, ao invés de adotar uma decisão baseada em fatos e em uma análise dos riscos declarou em Paris o diretor da Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata), Giovanni Bisignani, que manifestou a insatisfação das companhias com a gestão dos governos ante a crise.

As dúvidas sobre as medidas rígidas europeias surgiram no fim de semana, depois que duas companhias aéreas alemãs realizaram voos domésticos sem passageiros e afirmaram que as aeronaves não apresentaram nenhum dano.

Aos questionamentos sobre a pertinência de fechar o espaço aéreo europeu, com um alcance sem precedentes desde os atentados de 11 de setembro de 2001, se somaram outros sobre a falta de coordenação na resposta dos países europeus, que mantêm a soberania na área de gestão aérea.

É um problema para a Europa. É um caos europeu. Foram necessários cinco dias para organizar uma teleconferência entre os ministros dos Transportes da União Europeia (UE) reclamou um indignado Bisignani à BBC.

O presidente da Fundação Schuman, um centro de pesquisas sobre assuntos europeus, Jean Dominique Giuliani, falou de uma decisão mais motivada pelo medo do que pela ciência .

O verdadeiro culpado seria este famoso princípio de precaução, este símbolo do medo que aterroriza os que tomam decisões e transfere toda a responsabilidade a uma potência pública questionou.

No caso do vulcão islandês, as autoridades justificam a decisão. Segundo um oficial americano, foram encontrados restos de vidro na turbina de um avião de combate F-16 da Otan durante um voo na Europa ao ser indagado sobre o impacto da nuvem na aviação militar.

Não acredito que as precauções sejam demasiadas. Aplicamos um método regulamentar, mas antes de mais nada de segurança concordou Patrick Gandil, da Direção Geral de Aviação Civil da França.

Internet: ajuda a um clique

Evelyn Soares

O cancelamento de milhares de voos para a Europa provocou um grande caos e deixou inúmeras pessoas presas em aeroportos e sem poder se locomover. O sistema de trens Eurostar está congestionado com tantos pedidos de passagens, dificultando a vida de quem precisa sair de cidades.

Mas a solidariedade não para, pelo menos na internet. Sites como volcanohelp.eu, volcanotaxi.com e volcanocanceledtravel.com foram criados recentemente para solucionar esses problemas.

No primeiro, diversos fóruns foram abertos para quem deseja pegar carona. As brasileiras Claudia e Sophie estavam presas em Madri, querendo retornar para Amsterdã. Cerca de uma hora depois, elas receberam uma resposta de Asserti, que estava na Bélgica e daria uma carona para três pessoas, a um preço a ser ajustado. Solução tão rápida para um problema de grandes proporções.