Líder nas pesquisas, David Cameron é a esperança dos conservadores

Val Oliveira, Jornal do Brasil

LONDRES - A menos de dois meses para uma das eleições mais disputadas em solo britânico em 6 de maio máquinas trabalham a todo vapor na sede dos três principais partidos políticos da Inglaterra. Com quase 10% a frente do Partido Trabalhista, o Partido Conservador é o favorito, o que pode marcar a volta dos tories ao poder depois de 13 anos na oposição.

Com a missão de colocar os conservadores de volta na liderança política britânica está o londrino David Cameron, que se tornou membro do Parlamento em 2001. Sua ascensão é um fenômeno.

Após receber o diploma em filosofia, política e economia em Oxford, Cameron trabalhou para o Conservative Research Departament por cinco anos, assessorando o então premier britânico John Major. Sua oratória e veias conservadoras atraíram a atenção do então ministro da Fazenda, Norman Lamont, que o ofereceu o cargo de conselheiro político.

Decidido a entrar para a vida pública, em 1997 ele se candidatou ao Parlamento. Apesar da derrota, não jogou a toalha e voltou ao ringue em 2001 para ser eleito pelo distrito de Witney. Muitas vezes chamado de Blair for the tories (o Blair dos tories), seu vigor jovem e sua estância política moderada lhe renderam a liderança do partido em 2005.

Com uma tradição de escolher líderes de origens mais simples, Cameron é o primeiro conservador com uma escola privada no currículo desde Sir Alec Douglas-Home, na década de 60, e membro do clube White's, frequentado pelo príncipe Charles e seus herdeiros.

Modernizar é o lema

O novo líder injetou modernidade à legenda e a colocou à frente do Partido Trabalhista pela primeira vez em 10 anos. Desde 2008, os conservadores estão no topo das pesquisas. Sua decisão de escolher mais candidatos mulheres asiáticos e negros é inédita na história do partido e certamente popularizou os tories.

Um dos inúmeros depoimentos de Cameron disponíveis na internet revela um pouco de sua estratégia:

Não fizemos essas mudanças apenas para modernizar o partido. Queremos ser o partido do país inteiro, que debate e representa o Reino Unido, que possa resolver todos os problemas enfrentados pela nação. Nosso país tem implorado para uma medida alternativa para esse governo que fracassou. Temos que ser mais que modernos. Temos que ser radicais e audaciosos .

Apesar da liderança, observadores dizem que é cedo para cantar vitória. Na última, os conservadores têm 39% da preferência, seguido pelos trabalhistas (30%). O partido Liberal-Democrata tem 19%. Tal resultado levaria ao Hung Parliament (quando nenhum partido tem maioria absoluta) e exigiria muita diplomacia do líder conservador em formar a coalizão.

Apesar de ser popular com o eleitorado jovem e feminino, uma considerável camada eleitoral britânica ainda se diz intrigada pelo candidato conservador.

A população olha para Cameron com olhos muito mais críticos do que o fizeram para Blair. afirma Willie Sullivan, diretor de campanha da organização Vote for a Change. Sendo assim, eles percebem o perfil nobre de Cameron e acreditam que ele nunca será um deles . O escândalo das despesas no ano passado trouxe uma praga para a casa dos conservadores.

Talento diante das câmeras é bem explorado

Ciente de que os eleitores consideram a vida pessoal e valores morais dos candidatos na hora de ir às urnas, David Cameron tem usado isso a seu favor como ninguém. Jovem, carismático e com uma facilidade incrível com as câmeras, ele adotou uma atitude mais relaxada sobre privacidade, e críticos especulam se sua personalidade será decisiva nas eleições.

Na primeira série do programa de TV Trevor McDonald meets David Cameron, ideologias políticas deram lugar à personalidade. Eleitores descobriram que David não perde a compostura e faz bagunça quando cozinha.

A esposa, Samantha, falou francamente das qualidades do marido e mostrou seu lado caseiro, tentando atrair o eleitorado feminino. Independente, simpática e parte de uma das famílias mais tradicionais da Inglaterra, Samantha será crucial na campanha.

A falta de ideologia política no programa não foi uma surpresa, já que um dos principais argumentos contra o candidato é que lhe falta substância. Sua inteligência, senso de humor e carisma certamente criaram um contraste com seu oponente Gordon Brown. Mas analistas especulam o que acontecerá quando o candidato for confrontado por escolhas difíceis.

Sua tendência de propor soluções sem revelar quem pagará por elas já lhe rendeu inúmeros inimigos.

Cameron é o candidato da mudança. Mas uma mudança para melhor ou pior, e a grande questão para os eleitores ingleses afirmou Willie Sullivan.

Nma das piores crises econômicas enfrentadas pelo Reino Unido, e com cicatrizes abertas das guerras do Iraque e Afeganistão, Cameron poderá herdar um país em dificuldades.

A corrida ao número 10 da Downing Street apenas começou. A disputa será acirrada. O maior desafio para o futuro primeiro-ministro seja Cameron ou Brown será ressuscitar a confiança no sistema político britânico, perdida no escândalo das despesas em 2008, assim como na crise financeira.