Uruguai: Ex-guerrilheiros nos ministérios de Defesa e Interior

Yanina Olivera , Agência AFP

MONTEVIDÉU - Dois antigos guerrilheiros tumaparos ocupam os ministérios de Interior e Defesa no governo de esquerda do Uruguai, que começa a trabalhar nesta terça-feira, um dia após a posse do presidente José Mujica.

O ministério da Defesa ficou a cargo de Luis Rosadilla, ex-padeiro e com um passado de guerrilha que o levou a prisão em 1973, após o golpe de Estado, sendo solto apenas em 1982, três anos antes da restauração da democracia.

Ao escolher Rosadilla, Mujica, ex-líder tupamaro, enviou uma mensagem conciliadora às Forças Armadas, dizendo que elas "são imprescindíveis" para a reconstrução do país, mas apontou a necessidade "de não viver da nostalgia".

"Eu e o ministro estamos nos níveis dos que mais conhecem as entranhas das Forças Armadas" e "não somos fãs", afirmou.

"A vida deve ser vivida com coragem e em frente. Cada qual terá que carregar sua mochila, mas as mochilas não são para saldar dívidas, quando é preciso construir", assegurou Mujica, que prometeu melhorar os salários militares porque "há homens das Forças Armadas que vivem à margem da indigência.

Rosadilla prometeu uma gestão austera e garantiu melhorar as situações social, pessoal e trabalhista dos militares, mas sobretudo se comprometeu a "melhorar (sua) relação" com a sociedade.

"Tenho 56 anos e deixei todos os fanatismos, mas vou seguir defendendo o fanatismo de transformar o Uruguai em um país onde todos possam viver bem", afirmou.

"É preciso a contribuição de todos os uruguaios, incluindo as Forças Armadas", acrescentou, assegurando que o "Uruguai é meu único partido e a melhor maneira de fazer justiça com a história é garantir um melhor futuro para todos".

Já Eduardo Bonomi, nomeado ministro do Interior e que tem a seu cargo a Polícia, é um ex-guerrilheiro de 62 anos que ficou preso durante a ditadura (1973-1985).

É o principal articulador político de Mujica e ocupa o cargo enquanto espera a criação de um ministério da Presidência, quando passará a ser "a voz" do governo.

Então, o titular de Interior será Jorge Vázquez, irmão do agora ex-presidente, Tabaré Vázquez.

Ao assumir o cargo, Boromi anunciou que duplicará o orçamento e afirmou que "a segurança é um direito humano".

Manifestou a necessidade de construir novas prisões, num momento em que o sistema penitenciário se encontra no limite, após um preocupante informe do relator especial da ONU para a tortura, Manfred Nowak.

Na mesma linha de Mujica e Rosadilla, Nowak disse às forças policiais que "o povo, em sua maioria, deixou claro que não quer seguir vivendo do passado. É preciso construir o futuro; é a hora de somar".