Chilenos enfrentam desinformação ao chegar ao país por terra

Francisco de Assis, Portal Terra

CURICO - Falta de água potável, escassez de alimentos, racionamento de energia e réplicas do tremor do último sábado. Estas não são as únicas dificuldades enfrentadas pela população chilena após a tragédia que deixou mais 700 mortos em todo o país. Se não bastassem tantos problemas, o sistema de transporte tem dificultado a vida de quem estava fora e agora luta para voltar para casa. Uma rotina de paciência e perigo acompanhada pelo Terra.

"Tenho de ir a Concepción. Minha mãe e meus sobrinhos estão lá. Não tenho notícias deles. Tudo que sei vem da imprensa. Soube que estão saqueando todos os supermercados lá. Não estão roubando apenas comida. Aparelhos televisores e máquinas de lavar também estão sendo levadas. Isso é um absurdo porque até entendo as pessoas com fome pegarem comida. Mas não podem se aproveitar de um momento como esse para roubar objetos como eletrodomésticos", diz o chileno Nelson Aguill.

Para quem está na Argentina, a viagem começa em Buenos Aires. Dentro do terminal rodoviário de Retiro, as informações em relação ao que acontece no Chile são contraditórias. Com o cancelamento dos voos para Santiago, a maior parte dos passageiros não tem outra alternativa senão seguir para a capital chilena por terra. "É a melhor coisa a fazer. Pegar um ônibus em direção a Mendonza e de lá tentar cruzar a fronteira", diz o estudante Carlo Gonzales.

Como ele, muitos outros chilenos encaram as pouco mais de 12 horas de estrada de Buenos Aires até Mendonza na expectativa de que a Rodovia Pan-Americana esteja aberta. A auto-estrada é a maior da América do Sul. Corta toda a Cordilheira dos Andes, da Venezuela a Argentina, e passa por abismos e penhascos nevados. De Mendonza, na segunda parte do trajeto em direção a Santiago, são necessárias mais sete horas. Somente depois de quase um dia de estrada é possível ter a certeza do que vem pela frente.

Rumo a Curico

"Chegamos ontem à noite e tivemos que dormir por aqui. Nos disseram que as bilheterias seriam abertas hoje. Por isso dormimos na estação para consegui embarcar esta manhã", disse a dona de casa Alicia Atenas, uma das primeiras da fila a comprar sua passagem. Assim como o setor aéreo, o transporte terrestre ainda não foi retomado em sua totalidade. Aos poucos as companhias que interligam a capital Santiago ao sul do país retomam suas atividades. Com um pouco de sorte, consegue-se embarcar no primeiro ônibus que parte para a cidade de Curico, uma das mais afetadas de todo o país.

"Está um caos, parece o fim do mundo. Não é a primeira vez que isso acontece com a gente, mas parece que esse foi pior. Está faltando de tudo. As pessoas estão desesperadas. Até outro dia estávamos ajudando o Haiti. Agora, somos nós que precisamos de ajuda", afirma o engenheiro Alejandro Candio.

Dentro do ônibus de dois andares dividido por assentos de classe econômica e executiva, vários passajeiros viajam de pé. Falta espaço para tanta gente. O tráfego intenso de veículos faz com que o percurso de aproximadamente duas horas demore o dobro. Ao longo do caminho, os motoristas são obrigados passar por desvios. Mesmo as rotas alternativas apresentam perigo. Em muitos locais, o asfalto apresenta rachaduras e as pontes estão trincadas.

"Estou indo trabalhar. Venho de Viña del Mar e vou para San Fernando. Trabalho em uma hidrelétrica. Estava em casa quando houve o terremoto. Os trabalhos foram suspensos. Mas ontem me ligaram dizendo que era para vir. Temos que voltar ao normal", diz a secretária Ivone Maria.

Ao chegar em Curico, a sensação é terrível. O terminal de ônibus está parcialmente destruído. Parte do teto desabou. Não há energia elétrica. Lojas e galerias permanecem fechadas. Crianças, adultos e tratores dividem o mesmo espaço, como se a poeira deixada entre os blocos de concreto na rua fosse algo absolutamente normal.