Malvinas: autoridades negam violar leis com exploração de petróleo

Val Oliveira , Jornal do Brasil

LONDRES - Há três décadas as tropas argentinas se renderem a forcas britânicas. Era o fim da Guerra das Malvinas, arquipélago a 480 quilômetros da costa portenha, cuja soberania britânica, apesar do resultado do combate, ainda é contestada. Hoje, os dois países se veem mais uma vez em meio a uma crise sobre o controle do arquipélago. O estopim foi o anúncio de que a empresa britânica Desire Petroleum começaria a explorar as Malvinas à procura de óleo. O anúncio irritou a América Latina e, apesar de não repercutir muito em Londres, ressuscita tensões.

As Malvinas (Falklands, para os ingleses) estão sob controle da Grã-Bretanha desde 1833, e todos os seus moradores têm passaporte britânico. Mas a Argentina diz que a decisão do Reino Unido de autorizar a exploração de petróleo nas águas em disputada é ilegal, ferindo a resolução 3.149 da Assembleia Geral da ONU. Com esse argumento, o governo argentino lançou um decreto exigindo que todo e qualquer navio que transite sobre nas Malvinas receba uma autorização prévia das autoridades portuárias de Buenos Aires. Foi o suficiente para uma reação do Parlamento Britânico.

O Ministro da Defesa britânico, Bill Rammell, diz que Londres tem o direito legítimo de construir uma indústria petrolífera no arquipélago. Similarmente, em entrevista ao canal de TV Sky News, o secretário de Estado do Reino Unido para a América Latina, Chris Bryant, deixou clara a questão da soberania britânica sobre a Ilha,:

Estamos certos que as Falklands são britânicas. Os moradores da ilha querem pertencer ao Reino Unido. Apoiamos essa decisão.

O Ministro do Exterior, David Miliband, faz coro ao dizer que a exploração de óleo nas Malvinas é legitima e de acordo com leis internacionais .

O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, assina em baixo:

Fizemos todas as preparações necessárias para garantir que as Falklands estejam adequadamente protegidas.

A posição do Reino Unido recebe apoio total dos moradores das Malvinas. A Assembleia Legislativa local, que vendeu a licença de exploração de óleo à empresa britânica, afirma que o arquipélago tem todo o direito de desenvolver negócios legítimos em hidrocarbonetos.

Em entrevista ao JB, o professor de geopolítica da Royal Holloway University of London, Klaus Dodds, afirmou que Londres não viola leis internacionais, já que a Assembléia Legislativa da Ilha tem autonomia para autorizar tais escavações.

Em essência, segundo Dodds, a posição do Reino Unido está baseada na prerrogativa de que a comunidade das Malvinas deixou claro o desejo de seus cidadãos de continuarem a ser britânicos. A Argentina contesta essa reivindicação e sugere que a presença da Grã-Bretanha na Ilha é baseada numa anexação imperial no século 18.

O problema tem tanto a ver com história, como com circunstâncias atuais afirmou o professor.

Dodds revela, no entanto, que, sob um ângulo histórico, a decisão do Reino Unido de autorizar a exploração de petróleo nas Malvinas pode ser considerada uma provocação, pois a área está em disputa territorial.

Apesar da repercussão do assunto no âmbito internacional em recente Cúpula no México, a América Latina e o Caribe demonstraram apoio à Argentina o conflito tem pouca repercussão na mídia britânica.

Sugestões de que a disputa é ilegítima, e não passa de uma guerra de palavras da presidenta argentina, Cristina Kirchner, com o Reino Unido estampan os veículos de comunicação britânicos. Jornalistas também especulam se o conflito diplomático não é uma tentativa da Buenos Aires de desviar a atenção dos atuais problemas internos do país. Inflação nas alturas e um véu de corrupção cobrindo a Casa Rosada são fatos qie contribuem para um clima de instabilidade na capital.

Se essa é a tática que está em jogo, a senhora Kirchner brinca com fogo. afirma o jornalista do The Independent David Usborne. Nenhuma quantidade de agressão militar no palco externo conseguirá esconder dos cidadãos argentinos o absurdo aumento nos preços do pão e da carne naquele país.

Opinião pública

A falta de uma cobertura mais intensa pela mídia Britânica dificulta a participação da opinião pública no debate, já que a Guerra das Malvinas parece ter sido esquecida.

Muita gente sequer sabe da história do envolvimento do Reino Unido com as Malvinas. Para a maioria das pessoas, as Malvinas significam apenas uma coisa: uma curta guerra lançada por Margareth Thatcher em 1982, que a ajudou a ganhar as eleições. afirma o jornalísta e músico Asher Dresner.

Já para o geógrafo Thomas Hewer, o pouco envolvimento argentino na ilhas desde sua colonização dá pouca legitimidade ao país sobre o caso:

A Argentina está simplesmente fazendo um carnaval sobre o assunto, provavelmente por causa do potencial de óleo na área. Eu não acredito que Buenos Aires tenha direito legítimo sobre as ilhas.

O assunto vai certamente continuar incendiando o caldeirão de relações entre as duas nações nas próximas semanas. Apesar de o governo britânico afirmar que a possibilidade de um conflito militar é inexistente, o orgulho ferido da derrota de 1982 parece continuar vivo no coração da Argentina.

A questão do orgulho nunca esteve muito longe da atual liderança argentina. A guerra de 1982 foi humilhante nesse sentido, mas, ao mesmo tempo, ajudou a construir um governo democrático no país. Tem muita coisa em jogo e as tensões são tanto econômicas e políticas como visuais e emocionais. Uma coisa para se refletir é o tipo de impacto que a simples imagem de uma plataforma petrolífera tem na imaginação nacional Argentina concluiu o professor Klaus Dodds.