Zapata é enterrado sob vigilância

Jornal do Brasil

HAVANA - O preso político Orlando Zapata, que morreu em Cuba na terça-feira após uma greve de fome de 85 dias, foi enterrado quinta-feira em Banes, na província oriental de Holguín, a 850 km ao leste de Havana, sob intensa vigilância de agentes de segurança e em meio a prisões domiciliares, segundo relato da mãe do dissidente, Rosa Tamayo.

Acompanhada de dezenas de pessoas, Rosa, de 60 anos, ficou à frente do cortejo, num percurso de poucos quilômetros, de sua casa ao cemitério para onde o corpo foi levado.

Acabamos de sepultá-lo, muitos me acompanharam, mas sofremos repressões até o último instante disse Rosa Tamayo. Queríamos carregar meu filho nos braços, mas não pudemos.

Em ato incomum, o presidente cubano Raúl Castro lamentou, na quarta-feira, a morte de Zapata, e irritou a comunidade internacional ao negar a prática de torturas em Cuba, responsabilizando o governo dos Estados Unidos, o qual acusou de financiar a oposição com US$ 50 milhões anuais.

A morte de meu filho tem que me dar muita força. Esta mãe não admite nenhuma mensagem de condolências de Raúl Castro, porque eles mataram meu filho disse Tamayo, que teve a casa vigiada por agentes.

Logo após a morte de Zapata, mais de 30 dissidentes foram detidos temporariamente, muitos em suas casas, para impedir que participassem do funeral, segundo uma entidade direitos humanos considerada ilegal no país.

Em Havana, presos políticos já libertados e opositores puseram faixas negras nas portas de suas casas e acenderam velas diante do retrato de Zapata. Um livro de mensagens de pêsames foi aberto. Pouco depois do enterro havia 135 assinaturas.

Cubanos exilados em Madri e Miami condenaram Havana; o Parlamento checo observou um minuto de silêncio e o ex-presidente polonês e Nobel da Paz, Lech Walesa, soliciou a outros laureados empreenderem ações para pressionar o regime cubano a liberar presos por causa de suas convicções .

Em editorial publicado quinta-feira, o jornal espanhol El País criticou o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, afirmando que seu governo poderia exercer mais pressão sobre o regime cubano, em especial na área de defesa de direitos humanos.

O silêncio de Lula diante de uma ditadura como a castrista (...) mancharia o que ele representa, que é tão importante para a América Latina e, na medida em que o Brasil estabelece sua posição de potência emergente, para o resto do mundo , disse o jornal.