Embaixador Idalbert: Não fiquei imune à tragédia do Haiti

Joana Duarte, Jornal do Brasil

PORTO PRÍNCIPE - O embaixador do Haiti no Brasil, Idalbert Pierre-Jean, voltou quinta-feira ao seu país pela primeira vez desde o terremoto que devastou Porto Príncipe no mês passado. Menos de uma hora antes de aterrissar sob um sol escaldante, Pierre-Jean confessou não saber como reagiria ao rever uma cidade arruinada, com milhares de pessoas dormindo nas ruas, e acrescentou: Uma coisa é ver na TV, outra é presenciar . Sobre o difícil processo de reconstrução, Pierre-Jean garante que seu país tem sua própria equipe de arquitetos, engenheiros e urbanistas trabalhando, e diz que uma das principais ideias é a descentralização da capital.

Como o senhor vê a situação do seu país hoje e a ajuda que o Brasil tem dado?

A situação segue complicada pelo tamanho da tragédia que golpeou o meu país. Seria difícil para qualquer nação resistir. No Haiti, por ser um país pequeno e pobre, as consequências são mais complicadas, sobretudo porque estamos perto da época das chuvas. O próprio secretário-geral da ONU, Ban ki-moon, disse ser a primeira vez que o órgão faz frente a uma calamidade desta magnitude. Outro grande problema é o risco de enfermidades e epidemias, além do fato de que que milhares foram mutilados. Não sei como vou reagir ao rever o meu país pela primeira vez desde o terremoto.

Como está a situação do povo com relação à distribuição de alimentos?

A ajuda humanitária se faz de maneira mais ordenada, se compararmos com o período logo após ao terremoto, quando tínhamos as estradas bloqueadas por escombros. Agora a distribuição é mais eficiente, alcançando regiões mais remotas. Muitas cidades foram golpeadas no sul, mas a ajuda chega com tranquilidade a estas áreas.

Como está a situação política e administrativa?

O governo não opera normalmente, uma vez que todos os edifícios ruíram, inclusive o palácio presidencial e os ministérios. Conseguimos montar uma pequena estrutura rudimentar, mas as atividades ainda são limitadas. Durante as duas primeiras semanas, não se conseguia fazer contato com o Ministério de Relações Exteriores, mas em março já se espera o funcionamento normal dos órgãos do governo. O gabinete do presidente René Preval foi transferido para um antigo quartel general da policia, perto do aeroporto, onde vamos aterrissar. É o que conseguimos fazer até agora.

Como o senhor imagina sua volta ao país?

Sei que verei imagens mais impactantes que as da TV. Não fiquei imune à tragédia, pois perdi primas, primos e amigos do alto escalão da diplomacia haitiana. Tem se falado muito dos mortos e feridos, mas não se fala tanto de outro grande desastre, que é a perda de profissionais das embaixadas. As universidades também ruíram. Os alunos tentam sair do país para seguir com os estudos, porque não sabemos quando poderemos reconstruir os edifícios.

O senhor defende uma política de emigração em massa dos haitianos?

O Haiti sempre foi um país de emigração, sobretudo a partir dos anos 40 e 50, quando vivíamos sob ditadura. Hoje temos entre 1,5 milhão e 2 milhões de cidadãos mundo afora, principalmente nos EUA, Canadá e França. Esperamos que alguns países adotem medidas de anistia, como os EUA, a respeito de alguns haitianos em dificuldades.

Como deveria ser conduzida a reconstrução?

O Haiti tem sua própria equipe de arquitetos, engenheiros e urbanistas, que trabalham e estudam a melhor forma de reconstrução. Há ideias, como a de descentralizar a capital, criando cidades satélites, porque Porto Príncipe era um caos, com favelas muito piores que as do Brasil. Temos que descongestionar a capital. Outra ideia seria construí-la mais para o interior, fora da falha geológica.

Os conflitos civis que o Haiti viveu recentemente podem voltar a acontecer?

Acho que não, pois hoje temos o apoio da Minustah (força de paz da ONU) e da comunidade internacional. O que preocupa é a urgência do governo de fazer frente às necessidades, que aumentaram. Isso pode gerar pressão social, mas a comunidade internacional e o Haiti precisarão saber enfrentar os problemas do país a curto e longo prazo.