Governo abre o cofre para auxiliar na reconstrução do Haiti

Jornal do Brasil

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou ontem, na primeira reunião ministerial do ano, a edição de uma medida provisória com o objetivo de liberar um total de R$ 375 milhões para as ações brasileiras de ajuda humanitária e manutenção da segurança no Haiti. A quantia, bem superior aos US$ 19 milhões que já haviam sido anunciados, prevê a distribuição dos recursos entre os ministérios das Relações Exteriores, Saúde e Defesa.

Ao Ministério da Saúde caberá um aporte de R$ 135 milhões. O dinheiro tem como objetivo viabilizar a construção de dez Unidades de Pronto Atendimento (UPA) em Porto Príncipe, capital haitiana, no menor prazo possível. De acordo com o planejamento inicial do governo, as UPAs funcionarão 24 horas e terão como papel principal a redução da procura de atendimento de emergência nos hospitais.

Já o Ministério das Relações Exteriores receberá R$ 35 milhões para garantir o trabalho que vem sendo desenvolvido no país caribenho. Nesse total estão incluídos os US$ 15 milhões já anunciados para doações emergenciais à população haitiana. Os outros R$ 205 milhões reforçarão o caixa do Ministério da Defesa para financiar as ações de manutenção da segurança empreendidas pelas tropas brasileiras no Haiti.

Lula também assinou ontem um projeto de lei que autoriza o governo a indenizar as famílias dos militares mortos no terremoto do Haiti em R$ 500 mil. A medida prevê ainda o pagamento de uma bolsa educação de R$ 510 para os dependentes dos soldados, que terão direito ao benefício até completarem 24 anos.

O presidente participou ontem, na Base Aérea de Brasília, de comovente homenagem aos soldados brasileiros mortos no Haiti pelo terremoto. Durante a cerimônia de honras fúnebres, Lula citou e agradeceu a cada um dos 18 mortos e os chamou de bravos soldados do Exército Brasileiro . Para Lula, os militares fizeram parte da mais nobre missão humanitária já efetivada pelas nossas Forças Armadas brasileiras . Ao lado da primeira-dama, Marísa Letícia, Lula prestou condolências e abraçou os parentes das vítimas presentes à cerimônia.

Foi um desses episódios em que o destino cego e implacável parece ter assumido as rédeas da condição humana disse o presidente sobre o terremoto. Lula afirmou que os soldados brasileiros nunca foram confundidos com invasores estrangeiros pelos haitianos. Segundo Lula, os militares foram ao Haiti levando a seguinte mensagem: vocês não estão sozinhos. Viemos aqui, em nome do Brasil, e trazemos segurança para suas famílias, trazemos paz, trazemos remédios, solidariedade e, acima de tudo, respeito .

Os caixões dos militares foram colocados em um espaço isolado no hangar para o velório e cobertos pela bandeira do Brasil e com fotos identificando cada soldado. Além de Lula e da primeira-dama, compareceram à cerimônia o vice José Alencar, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes e o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

Os militares mortos receberam a Medalha do Pacificador com Palma post mortem. A condecoração, de acordo com o Exército, é concedida aos militares que, em tempo de paz, tenham se distinguido por atos pessoais de abnegação, coragem e bravura, com risco de vida no exercício de suas funções ou no cumprimento de missões.

Depois de depositar a medalha sobre cada um dos caixões, o presidente ainda homenageou dois civis mortos pelo tremor: a médica Zilda Arns, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, e Luiz Carlos Costa, o número 2 no comando da missão das Nações Unidas no Haiti.

O comandante do Exército, general Enzo Peri, afirmou durante a solenidade que a baixa de seus subordinados atinge todos os brasileiros. O general lamentou a morte dos 18 capacetes azuis , como são conhecidos os soldados da missão de paz das Nações Unidas no Haiti, e expressou seu pesar aos parentes dos militares.

Todos combateram o bom combate, levando àquela nação amiga, castigada por violências de diferentes naturezas, o que a gente brasileira mais possui: solidariedade, alegria e esperança disse Peri, em discurso.

Ontem, a Polícia Militar do Distrito Federal (PM-DF) confirmou o reconhecimento do corpo de mais uma vítima brasileira do terremoto. O tenente Cleiton Batista Neiva, 33 anos, estava na sede da Organização das Nações Unidas no momento da tragédia. O reconhecimento foi feito por um amigo do tenente e até a noite de ontem ainda não havia sido confirmado oficialmente pela ONU.