Voluntários arriscam a vida para chegar ao Haiti

Francisco de Assis, Jornal do Brasil

PORTO PRÍNCIPE - "O que enfrentaremos no Haiti é extremamente complicado. Será uma situação difícil, encontraremos pessoas boas e ruins. Há muitas mortes por lá. Os cadáveres estão expostos nas ruas. O risco de contaminação é grande, sobretudo em virtude da grande quantidade de corpos. A malária também preocupa. Quem não tiver estômago bom deve ficar." O aviso de Fernando Paez, um dos coordenadores da Cruz Vermelha da República Dominicana, aconteceu em Santo Domingo, capital do país. Na plateia, um grupo de voluntários se preparava para partir em mais uma missão humanitária que procura reconstruir o Haiti.

A conversa, realizada na véspera da viagem, conta com demonstrações de primeiros socorros, orientações de segurança e regras de conduta. Tradutores de francês e espanhol integram o grupo. Psicólogos, médicos e enfermeiros também. É a última etapa antes de pegar a estrada, viagem que foi acompanhada pelo Terra. "Quando vocês estiverem no ônibus não se esqueçam de que a vida de muita gente estará nas suas mãos", acrescenta Paez.

O comboio parte pela manhã. O micro-ônibus, que leva a equipe de 31 voluntários, lembra os coletivos encontrados nas ruas das cidades brasileiras. Apesar da roleta, não é preciso pagar a passagem e os assentos não são reclináveis. A torcida é para que nada aconteça de errado. "Não sei porque, mas esse ônibus tem pinta de que vai quebrar", diz o bombeiro socorrista César Pacheco.

Ele tem razão. Já passa das dez horas da noite quando o veículo para no acostamento. A fumaça no motor preocupa. Quem está a bordo é obrigado a descer. Por sorte, o grupo ainda não havia cruzado a fronteira. "Falei que podia quebrar. Ainda bem que estamos na República Dominicana. Se estivéssemos no Haiti estaríamos em sérios problemas. Estão saqueando muito do outro lado", afirma Pacheco.

Uma hora depois, com a bateria trocada, o comboio volta a rodar. Mas não por muito tempo. Desta vez, o problema é de superaquecimento do motor. Em uma região cuja água é artigo de luxo, é estranho ver um galão inteiro despejado nas correias, pistões e cabeçotes. Problema solucionado, às três da manhã, com a fronteira fechada, termina a primeira parte da missão. Em Jimani, o último município da República Dominicana antes do Haiti, é feita a parada para descanso.

"Vamos dormir. Temos um bom tempo para dar uma descansada", diz o estudante de medicina Davi Rodrigues. Dentro de um acampamento improvisado em uma escola, são espalhados os colchões. Depois de um dia inteiro de viagem, a fome é grande. Pedaços de bolacha, garrafas de água e salgadinhos são passados de mão em mão. O grupo aproveita para tomar banho. Em frente ao que seria a porta de entrada da escola, o balde e a mangueira substituem a ducha e a banheira. Já passa das 4h da madrugada quando todas as luzes se apagam.

"Não dormi nada. Tinha um cara roncando que parecia uma turbina de avião", diz a psicóloga Nazary Cordeiro. "Mas não viemos aqui para passar férias." Aos 39 anos, Nazary é uma das voluntárias mais experientes da turma. Trabalha em projetos de prevenção e orientação aos portadores do vírus HIV. Cansada, é uma das muitas que se mostra ansiosa pela chegada. "Quando disse para o meu marido que eu viria para cá ele não ficou muito feliz, mas soube entender. A população do Haiti precisa de apoio, temos que fazer a nossa parte", afirma ela.

Quando o dia começa a clarear, o comboio cruza a fronteira. O que se vê à partir daí é assustador. São soldados armados, tanques de guerra e haitianos em filas, na esperança de um visto para a República Dominicana. O tráfego intenso deixa claro a situação do país. As pessoas permanecem às margens da estrada à espera de doações. Barqueiros tiram do leito do contaminado lago fronteiriço a água para beber. Crianças choram de fome. Cheiro de formol. Casas destruídas.

Neste clima, que antes era de euforia, os voluntários da Cruz Vermelha desembarcam no Haiti. Cerca de 24 horas após a partida em Santo Domingo, o ponto de apoio mais próximo de Porto Príncipe, é levantada a barraca. Para quem se arriscou diante do perigo de fazer o trajeto em terra, fica a certeza de que o trabalho está apenas começando.