Falta de equipamentos prejudica atendimento em hospital do Haiti

Francisco de Assis, Portal Terra

PORTO PRÍNCIPE - Sob uma tenda erguida ao lado do estacionamento de militares, cerca de 200 pessoas permanecem internadas em condições precárias em um dos centros hospitalares montados às pressas no alojamento da Organização das Nações Unidas no Haiti. A falta de equipamentos para atender aos doentes tem aumentado a dor de uma população acostumada com a pobreza, mas que não perde a esperança.

Deitado em uma maca, com a perna esquerda imobilizada, Claudy Bertrand é mais um entre tantas outras pessoas que sofreram prejuízos irreparáveis e que mesmo assim ainda encontra motivos para superar a tragédia. "Gostaria que a Seleção Brasileira voltasse a jogar por aqui. Seria muito bom para a gente se eles não se esquecessem de nós e fizessem um amistoso para ajudar", afirmou. "Gosto de ver o Kaká jogar. Para mim, é o melhor. Não há ninguém igual a ele. Torço para que a Seleção Brasileira ganhe a Copa. Seria um momento de alegria para todo o povo haitiano."

Por trás da torcida, Claudy Bertrand luta pela sobrevivência. Sem poder andar, aguarda pela chegada de um cirurgião médico ou de equipamentos que possam ajudar durante o processo de reabilitação física. "Eu preciso ser operado porque minha perna esquerda está quebrada, mas não tem cirurgião para me atender. Minha perna dói muito. Não consigo mexê-la que dói. Tem que ficar o tempo todo esticada. Não posso nem mudar de posição", disse.

Situação parecida vive Sergine Dorsainvil, enquanto aguarda para ser operada. "Não tenho para onde ir. Estão fazendo tudo o que podem, mas não dá para atender todo mundo. Estou esperando a minha vez. Sinto muitas dores e um pouco de mal estar. Espero que o ferimento não se agrave", afirmou.

O clínico geral Alix Lanoue lamenta a falta de equipamentos de cirurgia ortopédica e considera a situação difícil. "A maioria deles tem sido levado para outros ambulatórios. Não temos equipamentos para operações cirúrgicas, principalmente as ortopédicas. Isso tem dificultado muito o nosso trabalho" disse. "A situação é muito complicada. Eles precisam de ajuda o tempo todo porque não conseguem se movimentar ou mesmo se mover pelas macas. São muitas fraturas e infecções", disse a enfermeira Odiame Acier, afirmando que a situação melhora na "medida do possível", com o recebimento de ajuda.

Apesar da falta de condições para o tratamento, os pacientes reconhecem que a situação estaria pior se não estivessem no hospital. "É o pior momento que já vivi na minha vida. Muitas pessoas não sabem de nada. Não sabem ainda o que aconteceu. Tem gente perdida e muitos desaparecidos. Está difícil para as pessoas chegarem aqui, mas quem chega é privilegiado porque lá fora a coisa está muito pior", disse Elysée Alcius, uma das pessoas internadas no local.

Longe de casa desde a última semana, o sobrevivente ainda não teve contatos com a família. Um drama que dificulta a recuperação. "Não sei de ninguém. Não sei de nada. Não sei se estão vivos ou mortos. Espero que esteja tudo bem. É a única coisa que posso fazer. O que mais me deixa triste é que não tenho como fazer nada por eles. Isso fere por dentro".

O haitiano afirmou que a noite do terremoto, no último dia 12, será muito difícil de ser esquecida. "Vi coisas muito difíceis de assimilar. Vi muitas pessoas mortas. Vi corpos decapitados. Crianças jogadas no chão. Velhos, mulheres, todos mortos. Desde então, estou alienado", afirmou Alcius.

Além da falta de equipamentos, os médicos aguardam pela chegada de psicólogos. "Vamos precisar deles. Por enquanto, a prioridade é salvar vidas. Mas depois, teremos que dar uma atenção especial para essas pessoas que sobreviveram ao terremoto", disse o médico Alix Lanoue. "No geral, os pacientes têm medo de outros terremotos como o que aconteceu hoje pela manhã e assustou todo mundo. Há pessoas que não sabem onde estão os seus filhos, pais e mães. O povo do Haiti está sofrendo muito. Este é um momento trágico e que nunca será esquecido", afirmou o profissional, que chegou ao Haiti há dois dias para tentar salvar a vida de pessoas que sequer sabem para onde vão após receber alta.

"Fico pensando no que vou fazer quando sair daqui. Tudo mudou, não tem mais aquela rotina. Meus amigos, onde estão? Os meus parentes estão bem? Como está a minha casa? Eu não sei o que vou fazer depois. Tenho sorte de estar por aqui. Tenho sorte de ter sobrevivido", disse Sheley Souffrant, outra haitiana internada no centro médico.