Haiti na Copa: ditador mandou surrar jogador

Marcelo Migliaccio, Jornal do Brasil

RIO - Em 1974, a seleção de futebol do Haiti desembarcou na Alemanha para disputar sua primeira e única Copa do Mundo. A curiosidade era geral, pois todos queriam saber como se portaria o time enviado pelo ditador Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que assumira o poder três anos antes no lugar do pai. No governo, ele manteve a tradição da família e aterrorizava o povo com sua polícia política, os tontons macoutes (bichos-papões), e mandingas de vodu.

Em campo, os haitianos até que começaram bem. A um minuto do jogo de estreia, contra a Itália, o atacante Emmanuel Sanon recebeu um lançamento, driblou o goleiro Dino Zoff e abriu o placar, para espanto das 50 mil pessoas que lotavam o estádio de Munique. Anastasi, Benetti e Gianni Rivera, porém, acabaram com a ameaça de zebra ainda no primeiro tempo.

Antes do segundo jogo, foi divulgado pela Fifa que o zagueiro Ernest Jean-Joseph havia atuado contra os italianos sob efeito do estimulante efedrina, no primeiro flagrante de doping em mundiais. Indignado, o ditador Baby Doc mandou um grupo de tontons macoutes sequestrarem o jogador na concentração e darem-lhe uma surra por, no entender do tirano, sujar o nome do país.

Veio a partida contra a então poderosa Polônia, e o time caribenho mostrou-se traumatizado com o corretivo aplicado ao companheiro: levou de 7 a 0, na segunda maior goleada da Copa, só superada pelos 9 a 0 que a Iugoslávia impôs ao Zaire.

Pelo menos os haitianos não foram ameaçados de morte como o time da África, já que o ditador Mobutu Sese Seko mandou avisar a seus atletas que, se levassem mais de quatro gols do Brasil, não se responsabilizaria por sua integridade física quando voltassem ao Zaire. Perderam só de três, graças a Deus.

No dia 23 de junho, o Haiti entrou pela terceira vez no Olympiastadion, para encerrar sua participação diante de uma decadente seleção argentina.

Aos 18 minutos do primeiro tempo, já perdia por 2 a 0, gols de Yazalde e Houseman. Ayala fez mais um aos 10 do segundo, e o mesmo Sanon da estreia diminuiu aos 18, com um belo chute de fora da área. Yazalde, pouco depois, sacramentou os 4 a 1 com que os haitianos se despediram da Alemanha.

Sanon, o artilheiro do time, depois foi jogar em times da Bélgica e dos Estados Unidos. Marcou 106 gols na carreira e é até hoje o maior ídolo do futebol haitiano. Em fevereiro de 2008, aos 56 anos, morreu de câncer no pâncreas em Orlando (EUA), onde vivia.

Nas eliminatórias para a Copa deste ano, o Haiti perdeu dois jogos e empatou três. Mais uma vez, ficou de fora.