Brasil quer manter comando nas operações no Haiti

Luciana Abade, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Prevista para acabar em outubro do ano passado, a Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (Minustah) foi estendida até o próximo mês de outubro. E, se previsão do Ministério das Relações Exteriores se confirmar, com o terremoto de 7.3 na escala Richter que devastou o país na última terça-feira, a missão será estendida por tempo indeterminado. Após a tragédia que atingiu o país caribenho, o Itamaraty trabalha agora para que o Brasil continue na liderança da missão. Na leitura da diplomacia brasileira, o país já demonstrou que está apto para comandar os esforços internacionais de auxílio ao Haiti. A afirmação foi feita ao JB por interlocutor de elevado posto no Itamaraty.

O reconhecimento francês, comprovado pelo pedido do presidente Nicolas Sarkozy para que o Brasil, juntamente com França, Estados Unidos e Canadá, reconstrua o Haiti, é um dos exemplos apontados pela diplomacia brasileira como sinal do respeito internacional que o Brasil conquistou desde que assumiu o comando da força de segurança no Haiti. Na visão da chancelaria brasileira, o fato de que as missões internacionais não se concentram mais apenas na questão da manutenção da ordem pode alavancar ainda mais o papel desempenhado pelo país no cenário internacional.

Desde a intervenção internacional realizada no Timor Leste, as missões de paz do Conselho de Segurança das Nações Unidas não focam apenas a questão da segurança. Hoje, a reestruturação econômica e social dos países que sofrem intervenção caminha lado a lado com a consolidação da ordem. Por isso, mais do que reestabelecer a segurança dos haitianos, os brasileiros hoje comemoram que, com sua presença, caminhavam para garantir algum nível de melhora nas condições de vida da população do Haiti até o terremoto.

Segundo o Itamaraty, em algumas questões de Justiça, por exemplo, os haitianos hoje preferem a ajuda de técnicos brasileiros à de outros membros da missão, principalmente aqueles oriundos de países desenvolvidos. Pelo fato do Brasil se tratar de um país em desenvolvimento, mesmo que em escala diferente do Haiti, a população local consegue enxergar os brasileiros como aliados que enfrentam problemas semelhantes em suas instituições e por isso entendem com mais facilidade os gargalos sociais do país.

Por enquanto, por ter o maior contingente militar em atuação no Haiti, coube ao Brasil a liderança da força de paz. Contudo, do ponto de vista prático, algum outro país pode reivindicar o comando, principalmente se enviar reforços que ultrapassem o número de militares brasileiros em território haitiano, algo que já aconteceu com as mobilizações internacionais de ajuda ao país caribenho nesse momento de crise. O Itamaraty, contudo, garante que hoje a probabilidade do Brasil perder o comando da missão para outra nação é pequena.

Obras e cordialidade para ganhar confiança

A confiança do Itamaraty na permanência do Brasil na liderança da missão de paz da ONU se baseia na aceitação que os militares brasileiros já têm na população local e na certeza de que o Brasil irá intensificar o trabalho que vem realizando e que há muito não se limita às questões de segurança. Só para citar um exemplo, o corpo de engenharia do Exército Brasileiro naquele país dobrou desde 2004. Mesmo antes do terremoto, eles já atuavam na construção civil e de estradas, o que deve se intensificar nos próximos meses. Além disto, foi o Brasil que ajudou a chamar a atenção internacional para as mazelas do Haiti.

O país mais pobre das Américas 80% da população haitiana vive com menos de um dólar por dia já foi alvo de quatro ações internacionais coordenadas pela Nações Unidas na década de 90. Todas fracassaram e o país continuou nas mãos de gangues sanguinárias. Em 2004, o Brasil, que ocupava uma vaga rotativa no Conselho de Segurança da ONU, foi chamado para liderar a missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti ou Minustah. Foi o primeiro passo brasileiro no sentido de conseguir um dia uma vaga permanente no conselho.

Militares ouvidos pelo JB afirmam que, além do profissionalismo que permeia as ações dos militares, o modo cortês como os militares tratam a população foi crucial no processo de aceitação das forças. Uma das primeiras ações de aproximação com a população promovida pelo Brasil foi a realização, em 2004, do jogo da paz , um amistoso entre a seleção brasileira e a seleção haitiana.

Em cinco anos de missão em solo haitiano, o Brasil sofreu quatro baixas, mas nenhuma delas em confronto. Em 2006, um dos comandantes da missão brasileira, o general do Exército Urano Teixeira da Matta Bacellar, foi encontrado morto em seu quarto de hotel. Apesar das suspeitas iniciais de assassinato, o Instituto Médico Legal de Brasília constatou ser suicídio.

A presença brasileira no Haiti não é unanimidade por aqui. Alguns parlamentares chegarem se articular para que a permanência dos militares brasileiros não fosse prorrogada. Especialistas também criticaram a presença das Forças Armadas. Para o Itamaraty, no entanto, como o Brasil é o principal contribuinte da missão da ONU, agora, mais do que nunca, deve permanecer onde está.