Multinacionais devem ajudar a reconstruir o Haiti, diz professor

Agência Brasil

NOVA YORK - As multinacionais que lucraram, nos últimos anos, explorando a mão de obra barata haitiana devem ajudar na reconstrução da nação arrasada pelo terremoto da última terça-feira (12), diz o professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP) Osvaldo Coggiola.

Segundo ele, essas empresas precisam ser chamadas agora para dar sua parcela de contribuição no atendimento às necessidades básicas da população do Haiti. Coggiola sugere que isso seja feita por meio de um impostos especial a ser pago por essas transnacionais.

"Se falou recentemente em um crescimento econômico de 2% do Haiti, em 2009, no mesmo momento em que o resto do mundo estava em uma situação bem difícil", lembrou o professor. "Mas esse crescimento foi baseado exclusivamente na operação das multinacionais, criando uma plataforma de exportação no país, baseada nos baixíssimos salários praticados no Haiti, ao arrepio da legislação trabalhista. Em meio a desgraça haitiana, alguém está tendo muito lucro", afirmou Coggiola à Agência Brasil.

Agora, com a situação de calamidade no Haiti, o professor defende que essas transnacionais contribuam com a população - talvez até por intermédio da criação de um imposto especial. "As empresas que operaram nos últimos anos no Haiti, e que obtiveram lucros extraordinários, deveriam ser cobradas para que participem da reconstrução do país."

Coggiola destaca que a precariedade do país é tão grande que o Haiti não possuí nem condições de determinar o número de vítimas do terremoto. "As primeiras estimativas da quantidade de mortos variam entre 30 mil e 100 mil pessoas. Isso não são estimativas. A variação é tão grande que o país simplesmente não tem as mínimas condições de calcular a quantidade de mortos em um evento dessa natureza".

A falta de infraestrutura dificulta até a distribuição do apoio humanitário enviado por outras nações. "O principal problema parece não ser a quantidade de dinheiro que se investe, mas a ausência de infraestrutura para que esse dinheiro seja encaminhado efetivamente para socorrer a população haitiana.", aponta o professor.

De acordo com Coggiola, essa situação também é fruto do modelo adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU) na ocupação da ilha. "A intervenção se limitou ao problema de segurança, o que não era o principal. O problema principal é que o país não tem condições básicas."

Por isso, o especialista afirma que os trabalhos de reconstrução devem ir além da construção de prédios. "É preciso criar uma estrutura básica, porque se não o pais seguirá a mercê de fenômenos naturais que podem exterminar a sua população."