Moradores de Porto Príncipe enterram seus milhares de mortos em valas

JB Online

PORTO PRÍNCIPE - Numa vã tentativa de tirar das ruas as centenas de corpos que se decompõem a céu aberto, as autoridades de Porto Príncipe mandaram cavar, nesta sexta-feira, uma vala comum às portas do cemitério de Porto Príncipe.

Três dias depois do tremor que devastou a capital haitiana e deixou dezenas de milhares de mortos, a procissão de veículos em direção ao cemitério é contínua. A estimativa é de que a cada cinco minutos um corpo é depositado lá, causando muito mais sofrimento aos haitianos que veem seus entes queridos serem enterrados como indigentes.

"Era meu pai, meu santo pai!", grita uma jovem, antes de desmaiar ante a visão da vala comum.

Uma mulher, como possuída, desce descontrolada para as sepulturas e diz que se sente melhor entre os mortos, até ser obrigada a subir, obedecendo a ordem de dezenas de pessoas.

A morte, apresentada da forma mais crua e desapiedada, inunda irremediavelmente as ruas de Porto Príncipe. Os trabalhos das equipes de resgate estrangeiras são ínfimos comparados à dimensão do desastre.

Há três dias numerosos corpos jazem empilhados nas ruas, decompostos e cobertos de moscas, em meio a um odor insuportável.

Em uma verdadeira corrida contra o relógio, os contingentes estrangeiros se preocupam prioritariamente dos que possam estar vivos sob os escombros.

Algumas máquinas escavadoras estrangeiras retiram cadáveres misturados a escombros e os transportam em caminhões, sem identificá-los, para as valas comuns mais próximas.

Familiares aguardam pacientemente o trabalho das pás mecânicas para ver se reconhecem ou veem aparecer algum de seus seres queridos em meio a ruínas.

"A verdade é que não sabemos o que fazer com os mortos", confessa Joseph Tihaly, haitiano voluntário que coordena a entrega e recolhe corpos abandonados.

Segundo os cálculos deste jovem, uns 5.000 corpos foram enterrados nestas valas nas últimas 24 horas.