Haiti: "pensei que fosse um atentado", diz militar brasileiro

Vagner Magalhães, Portal Terra

SÃO PAULO - O cabo Michael Pimentel de Almeida, 23 anos, sobrevivente do terremoto que atingiu o Haiti na terça-feira, afirmou nesta sexta que acreditou que o tremor fosse obra de um atentado terrorista. "Em um primeiro momento, pensei que se tratava de um atentado contra a nossa base, mas ao sair na rua, ao ver tudo no chão, percebi que algo mais grave tinha acontecido", disse. Almeida é um dos 16 militares brasileiros feridos na tragédia que retornaram hoje ao Brasil e concedeu entrevista coletiva em São Paulo.

O cabo contou que dormia na parte superior de um beliche e que na cama de baixo não havia ninguém. Segundo o relato do militar, a área onde estava a sua beliche foi a única em que a lage se partiu, e por isso conseguiu escapar com vida.

"Na hora do terremoto eu estava dormindo no terceiro andar do prédio da casa azul, que era a nossa base no Haiti. Eu acordei com o tremor e quando vi tudo já tinha caído. No andar em que eu estava éramos sete pessoas, três delas morreram. É uma situação muito difícil, eu e mais um colega tentamos procurar ajuda, mas quando percebemos vimos que estava tudo no chão", disse.

Segundo Almeida, logo após o terremoto, alguns populares tentaram invadir o local em busca de armas, porém as armas ficaram todas soterradas e não houve acesso a elas, nem mesmo por parte dos militares. "Foi a pior coisa que eu já passei na vida. Foi horrível, não tem como explicar, não tinha o que fazer", disse.

Natural da cidade de Cachoeira Paulista, distante 210 km de São Paulo, Almeida sofreu escoriações leves em um dos braços e sofreu um ferimento na cabeça, que não é considerado grave.

O cabo, que servia no batalhão de infantaria de Lorena, disse que gostaria de voltar ao Haiti. "Apesar de tudo, eu gostaria de voltar ao Haiti. A população local precisa muito da nossa ajuda. Quero entrar em contato com os familiares de todos os meus amigos que morreram. Não sei como escapei disso", disse.

Terremoto

Um terremoto de magnitude 7 na escala Richter atingiu o Haiti nessa terça-feira, às 16h53 no horário local (19h53 em Brasília). Com epicentro a 15 km da capital, Porto Príncipe, segundo o Serviço Geológico Norte-Americano, o terremoto é considerado pelo órgão o mais forte a atingir o país nos últimos 200 anos.

Dezenas de prédios da capital caíram e deixaram moradores sob escombros. Importantes edificações foram atingidas, como prédios das Nações Unidas e do governo do país. No entanto, devido à precariedade dos serviços básicos do país, ainda não há estimativas sobre o número de vítimas fatais nem de feridos. O Haiti é o país mais pobre do continente americano.

Morte de brasileiros

A fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, Organismo de Ação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Zilda Arns, e militares brasileiros da missão de paz da ONU morreram durante o terremoto no Haiti.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, e comandantes do Exército chegaram na noite de quarta-feira à base brasileira no país para liderar os trabalhos do contingente militar brasileiro no Haiti. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil anunciou que o país enviará até US$ 15 milhões para ajudar a reconstruir o país. Além dos recursos financeiros, o Brasil doará 28 t de alimentos e água para a população do país. A Força Aérea Brasileira (FAB) disponibilizou oito aeronaves de transporte para ajudar as vítimas.

O Brasil no Haiti

O Brasil chefia a missão de paz da ONU no país (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti, ou Minustah, na sigla em francês), que conta com cerca de 7 mil integrantes. Segundo o Ministério da Defesa, 1.266 militares brasileiros servem na força. Ao todo, são 1.310 brasileiros no Haiti.

A missão de paz foi criada em 2004, depois que o então presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto durante uma rebelião. Além do prédio da ONU, o prédio da Embaixada Brasileira em Porto Príncipe também ficou danificado, mas segundo o governo, não há vítimas entre os funcionários brasileiros.