Morre o "embaixador do golpe"

Jornal do Brasil

NOVA YORQUE - Morreu aos 96 anos o educador e diplomata Abraham Lincoln Gordon, embaixador americano no Brasil entre 1961 e 1966, mais conhecido por sua participação direta e controversa nas movimentações políticas que antecederam ao golpe de Estado de 1964. Ele morreu no sábado, de insuficiência respiratória, em uma casa de repouso próxima a Washington, mas a notícia só foi divulgada ontem pelo jornal The New York Times.

Mais do que mera testemunha de um período dramático da história nacional, Lincoln Gordon assumiu a embaixada americana no ano em que o presidente esquerdista João Goulart chegou ao poder. Embora ele sempre tenha negado qualquer participação direta no golpe, reconheceu que o governo americano investiu cerca de US$ 5 milhões em candidatos adversários de Goulart nas eleições de 1962.

Em 1976, quase 10 anos após deixar a embaixada no Brasil, Gordon admitiu que a administração do presidente Lyndon Johnson que assumiu o poder em 1963, após o assassinato de Kennedy chegou a se preparar para uma intervenção militar, com o objetivo de impedir que um governo de esquerda assumisse o poder no Brasil.

No documento Um plano de contingência para o Brasil, de 11 de dezembro de 1963 e liberado para consulta pelo governo americano em 2007, Gordon e o então secretário-executivo do Departamento de Estado americano, Benjamin Head, ofereciam possíveis cenários que poderiam surgir a partir da crise política que atingia o Brasil.

Uma das possibilidades previstas era a de que João Goulart fosse afastado e que houvesse no Brasil uma tomada militar interina . O documento sugeria que, nesse caso, o governo americano oferecesse ajuda militar às forças que faziam oposição ao governo democrático.

Dias antes do golpe, em março de 1964, Gordon enviou aos EUA um telegrama em que pedia a adoção o quanto antes, de medidas para preparar um fornecimento clandestino de armas que não sejam americanas para os que apoiam Castello Branco em São Paulo (...) Deveríamos nos preparar sem demora para a eventualidade de uma intervenção aberta que se faça necessária em uma segunda fase, e para a possibilidade de ação soviética de apoio ao lado de inclinação comunista .

Brasilianista

O deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), que lutou contra a ditadura e foi enviado ao exílio, foi lacônico ao comentar a morte de Gordon:

Teve papel importante no golpe de 64, mas era um estudioso do Brasil. Publicou um livro sobre o país, se tornando brasilianista.

Com doutorado em Oxford, Gordon foi professor em Harvard e chegou a ser presidente da Universidade Johns Hopkins entre 1967 e 1971, período tumultuado pelos protestos de estudantes e professores contra o envolvimento americano no Vietnã. Ele também atuou em Paris e Londres como administrador do Plano Marshall, que foi posto em prática para ajudar na recuperação econômica da Europa após a Segunda Guerra Mundial.

Gordon escreveu livros e artigos sobre o governo americano, segurança nacional e política externa, estratégias da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e sobre o Brasil.

Em uma carreira dividida entre compromissos acadêmicos e governamentais, Gordon atuou como consultor da Comissão de Energia Atômica da ONU, conselheiro econômico da Casa Branca e secretário de Estado adjunto para assuntos interamericanos.