Organizações dizem que governo hondurenho está se armando para eleição

Agência ANSA

TEGUCIGALPA - O governo interino hondurenho teria adquirido artefatos bélicos para aumentar a repressão contra os apoiadores do presidente constitucional do país, Manuel Zelaya, deposto em junho. A denúncia foi feita nesta terça-feira à noite pelo Comitê de Familiares de Presos Desaparecidos de Honduras (Cofadeh).

- A ditadura político-militar-empresarial de Roberto Micheletti se armou até os dentes, equipando-se nos últimos dias com apetrechos de guerra para converter o processo eleitoral em um cenário de luta e enfrentar um inimigo imaginário, representado pela Frente Nacional de Resistência contra o Golpe de Estado - afirma a Cofadeh em um comunicado.

As eleições presidenciais de Honduras estão marcadas para o próximo domingo, data determinada antes do início da crise política no país. Muitas nações, no entanto, já adiantaram que não aceitarão o resultado de um pleito convocado pelo governo.

A Frente de Resistência, que congrega os opositores ao regime de Roberto Micheletti, divulgou um comunicado no qual denuncia que "o processo eleitoral de 29 de novembro prescinde de toda a legitimidade e legalidade porque se realiza em meio a um golpe de Estado militar onde se negam direitos humanos básicos à população".

A organização também já havia anunciado, no início desta semana, que o atual governo pretendia intensificar a repressão a manifestantes para garantir a execução do processo eleitoral.

De acordo com a Cofadeh, no último dia 9 as autoridades de facto receberam um caminhão blindado norte-americano, comprado por US$ 12 milhões a fim de controlar os distúrbios urbanos. O governo golpista também teria adquirido dez mil granadas de gás lacrimogêneo e cinco mil projéteis da substância, ao custo de US$ 933 mil.

A nota da Cofadeh classifica os gastos militares como um desperdício e lembra dos comunicados enviados aos prefeitos para que identifiquem membros da Frente de Resistência. Segundo a organização, as medidas são um presságio das "eleições espúrias" de 29 de novembro.

Ontem foi encontrado em Tegucigalpa o corpo do professor Gradis Espinal, 56 anos, coordenador da Frente de Resistência em Nacaome, a 120 quilômetros da capital. Ele havia sido sequestrado por paramilitares na segunda-feira.

Segundo a Cofadeh, o assassinato de Espinal se soma aos dos também professores Roger Vallejo, Mario Contreras, Félix Murillo, Martín Barrientos e Tito Urquía. A organização afirma ainda que outros opositores do regime se encontram sob o poder da polícia.

O presidente do Comitê para a Defesa dos Direitos Humanos (Codeh), Andrés Pavón, explicou que os golpistas pretendem tornar lícito o golpe de Estado de junho passado e legitimar as eleições gerais do próximo domingo. Por isso, estão "executando um plano macabro para criar um cenário de medo, terror e perseguição contra dirigentes populares".

Pavón reafirmou sua denúncia de que o regime de facto pretende cometer um massacre contra cerca de 1.300 membros da resistência, e que teria contratado mercenários para isso, além de convocar mais de cinco mil reservistas do Exército a fim de custodiar as urnas eleitorais.

Para o presidente da Codeh, o assassinato de Espinal faz parte de um plano dos golpistas, que também teriam matado o filho de uma opositora como forma de passar uma mensagem aos jovens cujas mães apoiam o movimento de resistência. As autoridades planejariam ainda a execução de alguns advogados, jornalistas e defensores dos direitos humanos.

O ativista acusou os Estados Unidos de estarem por trás do golpe em Honduras e disse que entregará ao embaixador norte-americano no país, Hugo Llorenes, uma carta na qual adverte sobre os crimes em via de serem cometidos pelo regime de facto.