Lampreia diz que governo falhou na missão em Honduras

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SÃO PAULO - O governo brasileiro tentou protagonizar uma solução para a crise em Honduras, mas falhou devido a um cálculo mal feito em relação ao presidente hondurenho deposto, Manuel Zelaya, afirmou o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia.

Zelaya foi deposto por militares e expulso do país em 28 de junho sob acusação de tentar realizar um referendo para mudar a Constituição e buscar sua reeleição. Um governo de facto, liderado por Roberto Micheletti, assumiu então o poder em Honduras, que passou a não ser reconhecido pela comunidade internacional.

- Zelaya é uma pessoa que dificilmente é controlável e que causou logo um alvoroço imenso e criou uma situação muito radicalizada, muito tensa - afirmou o ex-chanceler à Reuters.

Enquanto Zelaya esteve exilado no exterior, após a deposição, procurando apoio para voltar à Presidência, o Brasil tentou conquistar uma posição de destaque na condução das negociações.

Mas a volta clandestina do presidente deposto a Honduras e seu abrigo na embaixada brasileira, em Tegucigalpa, levantaram suspeitas na comunidade internacional de que o país havia contribuído para seu retorno.

Por conta disso, o governo brasileiro teve seu papel minimizado, passando de possível intermediador a um dos atores da pior crise na América Central em décadas.

- Ao fornecer uma plataforma política para o Zelaya, tomamos um partido, entramos diretamente nessa querela política que está se passando lá - disse.

Na semana passada, uma missão de diplomatas dos Estados Unidos desembarcou em Honduras para intermediar aquela que seria a última chance de se chegar a um acordo. As tentativas anteriores da Organização dos Estados Americanos (OEA) fracassaram.

Uma nova eleição presidencial já havia sido marcada antes do golpe, para 29 de novembro, porém a comunidade internacional ameaça não reconhecer o resultado se Zelaya não for restituído no cargo antes do pleito.

Representantes de Micheletti e do presidente deposto têm mantido uma série de diálogos para tentar acabar com a crise, mas o impasse está na restituição.

Sob pressão da missão norte-americana, liderada pelo subsecretário de Estado norte-americano para o Hemisfério Ocidental Tom Shannon, as partes concordaram em assinar um acordo e deixar que o Congresso decida sobre o futuro de Zelaya, e não a Suprema Corte, como exigia o governo de facto.

O avanço nas negociações em Honduras reafirma a influência e o poder de persuasão dos norte-americanos na região, seja com o uso de estratégicas políticas, como no caso hondurenho, seja com o uso de forças, como na invasão da Guatemala, nos anos 1950.

O acordo mediado pelos EUA, no entanto, não garante o fim do impasse hondurenho que já dura quatro meses. Contudo, Lampreia acredita que o Brasil poderá sair bem da situação, apesar de não ter contribuído para resolver o problema.

- Se houver uma solução nas linhas do que foi negociado pelo embaixador Tom Shannon, o Brasil sai relativamente bem (...) os americanos agora que entraram nesse circuito não vão deixar de levar a questão até o final, eles não iam interferir na questão e depois se retirar.

"FISCAL DA DEMOCRACIA"

Lampreia, que foi ministro das Relações Exteriores no governo de Fernando Henrique Cardoso, de 1995 a 2001, disse que o Brasil nunca teve prioridade diplomática na América Central, o que explica o envolvimento involuntário e forçado na questão hondurenha.

- É uma zona onde nós não tínhamos realmente cacife, influência diplomática para ter um peso importante - disse o ex-ministro. Ele acrescentou que os EUA tinham de mostrar que continuavam a ter uma grande influência na região.

- (Os EUA) precisavam mostrar que não estavam indiferentes e que tinham uma política para o continente, uma atuação que não era de distanciamento completo.

Para Lampreia, em uma região cada vez mais complexa, o Brasil precisa adotar uma política externa "cautelosa", mas ainda tendo por base democracia, liberdade e direitos humanos.

- Ela (política externa brasileira) continua tendo uma base de princípios, ela é uma política cautelosa porque está navegando entre situações cada vez mais radicalizadas, entre Venezuela e Colômbia, com praticamente uma boa parte dos vizinhos de Chávez e mesmo a situação na Bolívia e no Equador.

Para o diplomata, o Brasil tem interesse em se tornar uma espécie de "fiscal da democracia" no continente.

- Por causa disso, creio que ela tem que ser necessariamente um tanto cautelosa.

"PREPARAMOS TERRENO"

Lampreia reconheceu que os governos de FHC e de Luiz Inácio Lula da Silva trabalharam para uma inserção mais forte do Brasil no centro do poder decisório internacional, mas que durante o tempo em que foi chanceler a atuação diplomática teve uma "ação limitada".

- O governo FHC teve o seu tempo histórico num momento muito menos favorável do que o governo Lula, no momento de crises econômicas que se abateram, inclusive, sobre o país, que nos davam muito mais vulnerabilidade.

Para o ex-ministro, isso fez com que, de certo modo, o governo de FHC preparasse "o terreno, como foi também o caso da política externa, para depois o governo Lula poder atuar com muito mais confiança e muito mais força dentro de um cenário muito mais favorável."