Muro de Berlim: divisa ainda permanece na mente de alemães

Joana Duarte, Jornal do Brasil

RIO - A derrubada do Muro de Berlim não conseguiu ainda a unificação harmoniosa das duas Alemanhas que a festa de rua, os abraços e a champanhe compartilhada naquela noite sugeriam, afirmam analistas. Nos dias que se seguiram à corajosa derrubada do Muro, os alemães rapidamente se deram conta de que a unificação não aconteceria em condições iguais e que a Alemanha Ocidental simplesmente engoliria sua metade Oriental. E, muito embora o colapso do paredão de concreto tenha levado a economia de mercado para toda a Alemanha, faltou, segundo observadores, o contraponto social, já que a propalada integração foi, na realidade, uma subordinação dos alemães orientais aos seus compatriotas ocidentais, preservando o Muro intacto em seus corações e mentes.

Como é possível fazer a integração de 20 milhões de alemães? questiona a socióloga berlinense Barbara Freitag-Rouanet, mulher do embaixador brasileiro Sérgio Paulo Rouanet, durante uma mesa-redonda promovida quarta-feira no Rio pelo Consulado alemão, para marcar o 20º aniversário da Queda do Muro, ocorrida em 9 de novembro de 1989 Os dois lados não eram irmãos. O que ocorreu depois da Queda foi que, ao invés de precisar buscar mão-de-obra barata no quintal de países comunistas, tornou-se possível recrutar força de trabalho igualmente barata e que, ainda por cima, falava alemão e não reclamava. Foi muito bom para a Volkswagen.

Barbara defende a tese de que a consequência imediata do colapso do Muro foi que as mulheres do lado Oriental passaram a pintar os cabelos, e os homens compraram automóveis Mercedes de terceira mão .

Quando voltei a Berlim, no início da década de 90, encontrei ali engenheiros, arquitetos e outros profissionais com mais de 50 anos trabalhando como guia de museus, por exemplo. Não tinham oportunidade na cidade agora capitalista diz Barbara. Embora tenham sido os alemães orientais que derrubaram o Muro, fiquei revoltada pela maneira como eles estavam sendo tratados. Uma geração foi sacrificada em nome de uma Alemanha hegemônica e capitalista. Tudo parecia maravilhoso, todos se abraçaram, mas ainda há uma nítida separação na cabeça de muitos alemães orientais, que se viram traídos.

Copa sem bandeiras

O economista Ingo Plöger diz que os berlinenses são personalidades singulares: Inquietos, audaciosos, talvez francos demais , e concorda que preservam um Muro simbólico interno difícil de derrubar. Durante a Copa do Mundo da Alemanha em 2006, lembra Plöger, era difícil identificar manifestações de nacionalismo alemão. Os alemães não penduravam suas bandeiras nas janelas .

O ano de 2006 foi a grande virada neste sentido afirma Ploger. É notável que os alemães tenham adquirido um pouco de autoconfiança. O hino nacional não é mais tão constrangedor. Mas também assustava um pouco ver alguns alemães gritando, agitando bandeiras e usando capacetes prussianos.

Nascido em Hamburgo, o correspondente no Brasil do diário alemão Der Spiegel, Jens Glusing, diz que ainda considera áreas da ex-Alemanha Oriental tão chatas hoje quanto achava antes da Queda do Muro, quando encarava o outro lado da Alemanha como uma espécie de anti-Disneylândia: Um país obscuro, estranho, misterioso, tomado pelo cheiro da queima de carvão usado nos sistemas de calefação .

Não é mais tão ruim como antigamente admite mas o ambiente, o tipo de comportamento dos que vivem na antiga parte Oriental continua parecido. É bom lembrar que as duas Alemanhas eram países diferentes e não apenas partes de uma coisa só. Essa separação teve um impacto muito forte. Inclusive, há alemães que sentem falta da velha República Democrática Alemã.

Os líderes da França e da Grã-Bretanha na época da Queda do Muro, François Mitterrand e Margaret Thatcher, também eram contrários ao surgimento de uma Alemanha reunificada, lembrou Plöger, acrescentando uma frase atribuída a Mitterrand: Gosto tanto dos alemães que prefiro duas Alemanhas .