EUA: republicanos comemoram vitórias que preocupam governo Obama

Portal Terra

NOVA YORK - Há exatamente doze meses os democratas comemoravam uma vitória histórica, voltando ao poder depois de oito anos de governo conservador em Washington. A noite desta terça-feira foi dos republicanos. Enquanto a Casa Branca anunciava que o presidente Barack Obama iria mais cedo para a cama, deixando de lado seu hábito de acompanhar a apuração pela televisão, a oposição celebrava o que considerou ser um referendo contra as diretrizes de governo apresentadas no primeiro ano do Time Obama.

Bob McDonnell venceu a disputa pelo governo da Virgínia, com 60% dos votos, e em Nova Jérsei, tradicional bastião do Partido Democrata, à meia-noite no Brasil, com 66% dos votos apurados, o republicano Chris Christie liderava as apurações, com 50% dos votos contra 44% do democrata Jon Corzine, lutando por sua reeleição. A NBC, no entanto, já projetava a vitória histórica de Christie, apesar das seguidas visitas de Obama ao Estado para ajudar seu ex-colega no senado. A noite foi completa para a oposição, com vitórias em Virgínia também para vice-governador e advogado-geral do Estado.

- Esta vitória não reflete apenas os estados de Virgínia e Nova Jérsei. Ela é um espelho da situação do país como um todo. Quando a Casa Branca não ouve o desejo da maioria, forçando uma reforma do sistema de saúde pública que desagrada à população, ela é punida nas urnas. O vento está virando! - comemorava no canal Fox Michael Steele, o primeiro presidente negro do Partido Republicano. Alex Castellanos, estrategista republicano e comentarista da CNN, concordava com Steele: 'A tônica dos republicanos foi a de que a economia está em más mãos. O voto foi nos candidatos, mas também no partido e na ideia de que os americanos não querem um governo federal gastando o dinheiro do contribuinte de modo extravagante. Foi, neste sentido, um voto de protesto - disse Castellanos.

Esta seria a razão, de acordo com Castellanos, para os subúrbios de Washington, na porção setentrional de Virgínia, terem migrado do flanco democrata para o republicano, decidindo a eleição naquele Estado. O liberal Chris Matthews, um dos principais âncoras da MSBC e que foi sondado pelo Partido Democrata para disputar as eleições ao Senado em seu estado natal, a Pensilvânia, foi mais enfático: 'Os eleitores deram um sonoro não aos políticos que gastam muito sem resultados práticos. Corzine é visto, em Nova Jérsei, como um típico gastador democrata. Se a economia é ruim, é a natureza dos eleitores americanos, eles votam na oposição, não tem jeito - disse.

No entanto, a CNN e a MSNBC fizeram pesquisas de boca-de urna em Virgínia e Nova Jérsei que parecem desmentir a tese da nacionalização das campanhas locais. Em Virgínia, 55% dos eleitores informaram que o voto desta terça-feira não esteve ligado ao presidente Obama, mas somente a questões locais. Apenas 24% disseram que votaram no candidato republicano em protesto à Casa Branca. Em Nova Jérsei, 60% afirmaram que não levavam em consideração Washington na hora do voto, contra 20% que estavam votando no candidato republicano especificamente porque ele era apoiado por Barack Obama, indíces idênticos nas duas pequisas. O índice de aprovação do presidente, de acordo com a CNN, é de 51% na Virgínia e 57% em Nova Jérsei, muito similar às suas margens de vitória na eleição do ano passado.

Para James Carville, consultor responsável pelo fenômeno Bill Clinton, o que interessa mais é o fato de que, ao contrário do ano passado, a militância republicana voltou às ruas e encontrou uma voz. Assim, os republicanos serão adversários mais difíceis de se bater nas próximas duas eleições nacionais.

- Não podemos nos enganar: a militância republicana está de volta. Os resultados de hoje provam isso. É de se preocupar - afirmou Carville, cabisbaixo. A vitória de Obama no ano passado marcou a primeira vez que o estado sulista bancou um democrata desde o longínquo 1964. Ewen MacAskill, do britânico The Observer, realça que as vitórias deram aos republicanos, desmoralizados e divididos, um "empurrão mais do que necessário para as eleições legislativas do ano que vem".

Em Virgínia, um estado-chave para as eleições presidenciais de 2012, 62% dos eleitores independentes votaram nos republicanos. - Este é um sinal de que os democratas enfrentam problemas sérios para os próximos anos - diz a analista da CNN Gloria Borger, lembrando que no ano que vem Obama enfrentará um teste ainda mais sério, as eleições de meio-termo de renovação do Congresso. Se perder a maioria no legislativo, como aconteceu com Bill Clinton em 1994, diminuem drasticamente as possibilidades de o Time Obama aprovar as reformas desejadas pelos liberais.

Sua situação, para analistas como o veterano William Schneider, da CNN, fica mais complicada na atual legislatura: 'Com a vitória republicana também em Nova Jérsei, vai ser muito mais difícil conseguir o voto dos democratas moderados para a reforma da saúde imaginada pela Casa Branca, especialmente para uma opção pública na reforma da Saúde. Eles temem perder as eleições do ano que vem', comentou Schneider.

Tanto em Nova Jérsei quanto em Virgínia, os resultados mostram que a aliança de negros, latinos, jovens e independentes que se juntaram aos democratas na vitória de Obama não se repetiu. - Boa parte dos eleitores de Obama ficaram em casa vendo televisão ou foram ao cabeleireiro. Simplesmente não foram votar - disse à MSBC Jane Hamsher, co-produtora do filme Assassinos por Natureza e uma das estrelas do site The Huffington Post.

Em Nova York, um dos políticos mais ricos do planeta, Michael Bloomberg, venceu as eleições para um terceiro mandato na prefeitura da cidade, ainda que por margem menos larga do que o esperado. O candidato independente, que recebeu o apoio dos Republicanos, contou com arma ainda mais poderosa do que o recorde em gastos em uma campanha eleitoral nos EUA, superando os US$ 100 milhões: índices de aprovação de 60%. E um Partido Democrata esfacelado, que não consegue eleger um prefeito na cidade desde 1980.