Francisco Carlos Teixeira da Silva: Pyongyang pratica chantagem

Joana Duarte, Jornal do Brasil

RIO - Especialista em história contemporânea e assuntos militares, Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dedica-se com muito gosto a desvendar os mitos da atualidade. Em entrevista ao JB, afirma, por exemplo, que a corrida armamentista da Coreia do Norte serve apenas para que Pyongyang possa, posteriormente, negociar o abandono dessas mesmas armas em troca de recursos básicos. Já sobre o Afeganistão, ele sugere: a guerra norte-americana na região tem como prioridade construir um cinturão de contenção contra a expansão chinesa e o risco de um renascimento russo . Francisco Carlos começa quarta-feira, no Rio, a ministar o curso Por que a guerra? na sede do Polo de Pensamento Contemporâneo.

A Coreia do Norte anunciou terça-feira a produção de mais combustível nuclear. Isso ocorre logo depois de o regime ter chamado os EUA de volta à mesa de negociações. Como explica esse comportamento?

Essa é uma velha estratégia que chamamos de fuga para cima e para frente. Como a Coreia não tem nenhuma retaguarda, foge para frente porque não tem mais nada a perder. A Coreia está produzindo muito rapidamente uma quantidade grande de armas para poder abandoná-las. O que a Coreia quer é ter essas armas em estoque para depois negociar seu abandono em condições muito mais vantajosas para ela, representando uma sobrevida para o regime através da importação de combustível, alimentos, roupas etc. Ou seja, ela vai vender essas armas para o Ocidente. É chantagem.

Por que se sente ameaçada?

Porque na verdade é um país ameaçado pela falência das suas estruturas. É um país absolutamente incompetente para alimentar sua própria população e é ameaçado também porque, tecnicamente, está em guerra com os EUA, que não reconheceram sua existência.

Como avalia a atual guerra norte-americana no Afeganistão?

A guerra no Afeganistão representa a possibilidade de os EUA colocarem o pé dentro da Ásia Central e constituir uma grande ponte que ameaçaria a China. Embora EUA e China sejam nominalmente aliados, no Afeganistão não interessa à China uma vitória esplendorosa dos EUA e que o Afeganistão se torne um satélite norte-americano. A China prefere uma Ásia para os asiáticos.

Os EUA querem transformar o Afeganistão num satélite?

Com certeza. As guerras dos EUA hoje na Ásia Central, nessas fímbrias Iraque, o enclausuramento do Irã, a dominância sobre o Paquistão e a guerra no Afeganistão são a construção de um cinturão de contenção contra a expansão chinesa de um lado e o risco de um renascimento russo de outro. É uma guerra de império nos confins dos limites dele.

Outubro foi o mês mais sangrento para os EUA no Afeganistão. Agora, Obama hesita em decidir se envia mais tropas ou não. O que ele deve fazer?

O mês de outubro foi o mais cruel exatamente pela total irresolução do próprio Obama. Ele tem que decidir se quer sair da guerra ou se quer ganhar a guerra. Ele não consegue tomar a decisão porque fez campanha como pacifista e acabou de ganhar o Nobel da Paz. Mas ao mesmo tempo, ele sabe que essa guerra poderá ter efeitos extremamente negativos se os EUA a perderem ou a abandonarem. Então ele faz a pior de todas as políticas: quer ganhar a guerra com poucos recursos e com poucas vítimas. Isso vai se alastrar enormemente. O mais correto neste momento seria uma evacuação total no Afeganistão deixar eles se enfrentarem ou então dobrar o número de homens e acabar com qualquer possibilidade de o Talibã e a Al Qaeda retornarem ao poder.

O senhor acha mesmo que uma vitória esplendorosa é possível? O Afeganistão já derrotou algumas potências...

No século 19 ele derrotou a Inglaterra, no século 20, derrotou a União Soviética e agora está se preparando para derrotar os Estados Unidos. Mas todas as potências que lutaram no Afeganistão travaram esta mesma guerra de confins do império. Nunca fizeram do Afeganistão um palco principal e sempre acharam que poderiam ganhar com um número reduzido de vítimas e um volume reduzido de gastos. Essa é a mística da história do Afeganistão. Enquanto as populações do Afeganistão jogam tudo numa guerra de sobrevivência, os impérios sempre acham que vale a pena ter o Afeganistão, mas se o preço a pagar for muito caro, o abandonam. Isso tem se repetido sempre.

Qual é a importância do Paquistão nesse conflito?

A guerra transbordou. Nesse sentido estamos vendo o Paquistão hoje como um país em disruption , ele está desmilinguido, literalmente. Isso é grave porque é um dos maiores países muçulmanos do mundo, tem um poder e uma possibilidade econômica grande, é uma potência nuclear e a idéia de disruption no Paquistão implica que... bom, quando se tem um vazio, o pior tecido acaba ocupando este vazio, e nesse caso, seria o extremismo islâmico. Isso é fundamental porque o Paquistão é um ponto de equilíbrio entre o Irã petrolífero e a Índia - a maior democracia do mundo. O Paquistão tem acesso direto através do Porto de Karachi às rotas de petróleo que vem do Oriente Médio e do Golfo Pérsico para o abastecimento da China, Coreia, Formosa e Japão. Então, perder o Paquistão seria perder um pião central no jogo de quem é a grande potência na Ásia hoje.

Como explica o fenômeno do homem-bomba muçulmano?

Não é algo da cultura árabe muito menos da religião muçulmana. Várias guerras tiveram táticas suicidas. Na antiguidade isso aconteceu, na Segunda Guerra Mundial, os kamikazes assumiram essas táticas suicidas. Tem a ver largamente com o sentimento de frustração. Quando você começa a achar que o maior ganho da sua vida é a sua morte, isso tem alguma coisa a ver com seu projeto de vida e o que a sociedade como um todo lhe oferece.

O senhor estudou em Berlim quando o Muro que dividia a cidade veio abaixo. Qual é o significado daquele momento para a história mundial?

A queda do Muro de Berlim... o Muro não caiu, ele foi derrubado e houve um risco de conflito de grandes proporções. Apenas uma ação direta de Gorbachov e do então chanceler alemão, Helmut Kohl, impediu um banho de sangue. Em primeiro lugar, a derrubada do Muro foi um momento de emoção das mais intensas, puras e extensas. Era impossível não se emocionar com aquilo que estava acontecendo. Todos ali tinham certeza absoluta que só por chegar, tocar no Muro, dar uma pancada no Muro, estavam fazendo história. Todos faziam história e todos a presenciavam. Em segundo lugar, a queda do Muro foi um fenômeno altamente mediático. Ele simbolizou um fim de época, mas decididamente, não foi a queda do Muro que mudou a história. O Muro foi derrubado em 1989, Gorbachov chegou ao poder em 1985. O processo foi deslanchado em 1985 e a conclusão do processo ocorreu em 1991 com o colapso da União Soviética. A queda do Muro, em 1989, está no meio. Ele é um símbolo, um ícone importante, mas não é o ponto de ruptura, que está entre 1985 e 1991. O processo histórico é mais lento e tem raízes mais profundas.

O senhor é a favor da entrada da Venezuela no Mercosul. O que diz àqueles que são contra?

Que a Venezuela compra anualmente no Brasil US$ 5 bilhões que gera emprego e renda para o nosso país. É um problema dos venezuelanos manter ou afastar Hugo Chávez do poder, como foi nosso problema manter ou afastar a ditadura militar. Se viesse alguém aqui tentar invadir o país e derrubar uma ditadura militar é capaz de todo o mundo se unir contra um invasor. Então acho que devemos deixar esse problema para ser resolvido pelos venezuelanos.

O Mercosul depende de um consenso para tomar qualquer decisão e isso já é extremamente difícil. O Chávez não prejudicaria o funcionamento do bloco nesse sentido?

Tanto quanto a União Europeia. Na terça-feira, o presidente da República Tcheca assinou o Tratado de Lisboa depois de dois anos de dizer que não o assinaria, paralisando o processo de decisão europeia por dois anos inteiros. Isso se chama um sistema cooperativista em termos internacionais. Tem que se negociar.